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Correio da Manhã

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13 de Julho de 2015 às 16:10
Esta semana vou falar do meu primeiro encontro com uma personalidade hoje em dia pouco estimada no mundo. Conheci Silvio Berlusconi numa reunião do PPE que decorreu no CCB há mais de dez anos. Ele era primeiro-ministro de Itália e eu presidente da Câmara Municipal de Lisboa e primeiro vice--presidente do PPD/PSD. Fiquei sentado ao seu lado, sendo de uma extrema cordialidade e afabilidade. Começou a explicar-me quem era quem e, às tantas, disse-me que, dos vários chefes de Governo que era suposto estarem na reunião, ainda não tinha chegado José María Aznar. Contou-me que era cada vez mais hábito de Aznar chegar depois dos outros. Sorria, mas sem fazer qualquer comentário. Disse-lhe que isso me fazia lembrar o célebre ministro da Cultura de França, Jack Lang, com quem convivi alguns anos no Conselho Europeu de Ministros da Cultura. Jack Lang também chegava sempre depois dos conselhos europeus começarem. Era um verdadeiro "show" dentro do Conselho, porque chegava com a sua corte e interrompia os trabalhos, para que todos o cumprimentássemos. José María Aznar tinha uma expressão mais fechada, mas a situação, pelo que descreveu Berlusconi, era algo semelhante, embora não tão aparatosa.
Silvio Berlusconi, como se sabe, tem alguns defeitos complicados, independentemente do respeito pelo princípio de não se poder condenar ninguém sem sentença judicial transitada em julgado. Mas há uma faceta que não lhe pode ser recusada: é um homem despretensioso, que lida com os outros independentemente das funções que ocupam a cada momento. Vi-o falar da mesma maneira quer a chefes de Governo, quer a funcionárias e funcionários das instituições. Dirige-se à generalidade das pessoas com aquela maneira de falar própria dos italianos, expansiva, expressiva e que muitas vezes envolve o fazer uma conversa agarrando uma pessoa pelo braço ou passando a mão pelo ombro.
Se forem verdadeiras as histórias piores que se escrevem sobre ele – e ainda esta semana foi alvo de uma condenação por parte de um tribunal –, é lastimável. Mas comigo só posso dar esse testemunho da sua bonomia, da sua descontração, mas também da sua inteligência. Não é qualquer indivíduo que consegue ser presidente do Governo de Itália durante nove anos. Tem, aliás, o recorde de permanência naquelas funções desde a II Guerra Mundial.
Em outubro de 2004, recebeu-nos a todos na capital italiana para a assinatura do Tratado Constitucional na lindíssima Sala dos Horácios e Curiácios, no Capitólio de Roma, numa cerimónia muito bem organizada. E aí pudemos confirmar como é encantador a receber os seus convidados. Nesse dia, eu respirava de alívio porque se tinha resolvido na véspera a questão da nomeação de Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia. Na noite anterior, tinha jantado com Durão Barroso, quase sozinhos num restaurante de Roma. Ele estava verdadeiramente preocupado com o impasse existente por força da substituição do indigitado senhor Bottiglione, que, por causa de uma declaração infeliz, foi chumbado.
Tudo parecia já estar em causa e o acordo político que levaria à escolha de Barroso estava também comprometido. Durante o jantar, Berlusconi disse-lhe que se tinha chegado a acordo para Franco Frattini – de quem Paulo Portas era politicamente próximo – ocupar o lugar de comissário que cabia à Itália. Durão Barroso respirou de alívio. E eu, como primeiro-ministro de Portugal, fiquei também, naturalmente, aliviado por todo esse processo complexo da saída de Durão Barroso não ficar comprometido. 
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