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Pedro Santana Lopes

Um maire carismático

“Bertrand recebeu-nos no belíssimo edifício da Mairie. Manda a verdade dizer que também os Paços do Concelho de Lisboa são dos mais bonitos”.

Pedro Santana Lopes 3 de Janeiro de 2016 às 00:30
A fotografia que acompanha este texto é referente a uma visita que fiz por ocasião do 10 de junho de 2002 a Paris. Na altura, eu era Presidente da Câmara de Lisboa e, se bem me recordo, foi a Presidência da República que fez o convite, porque o Dr. Jorge Sampaio queria nesse ano estar junto dessa nossa tão importante comunidade emigrante. Esta fotografia é escolhida agora também pelo tempo que vivemos e pela impressão a que todos causou o que recentemente aconteceu naquela cidade.

Recordo-me bem que durante essa visita assistimos a uma missa celebrada na Catedral de Notre-Dame pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, Dom José Policarpo. Houve também uma muito concorrida receção à comunidade portuguesa na nossa Embaixada em Paris. Sublinhe-se, aliás, que Portugal tem mais duas missões diplomáticas na capital francesa, sendo os seus representantes equiparados a embaixador, trata-se da OCDE e da UNESCO.

Naturalmente, à visita do Presidente da República e também, noutro plano, à do Presidente da Câmara de Lisboa, todos disseram presente e contribuíram para o resultado positivo daquela deslocação. À época era Presidente Jacques Chirac e primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin. Na fotografia que está nestas páginas está Jorge Sampaio ao centro, estou eu do seu lado esquerdo e no seu lado direito está Bertrand Delanoë, que era o maire socialista de Paris. É um político carismático, determinado e imaginativo. Na altura, e já lá vai mais de uma década, foi muito falado porque assumiu, e muito bem, a sua homossexualidade. Hoje em dia, esse facto já não é praticamente notícia, mas no princípio deste século e deste milénio, o maire da capital de um país assumir isso ainda era objeto de tratamento noticioso.

Bertrand recebeu-nos demoradamente no belíssimo edifício da Mairie de Paris. Manda a verdade dizer, aliás, que também os Paços do Concelho de Lisboa são um dos mais bonitos, senão o mais bonito, edifícios públicos ao serviço de órgãos de soberania ou da administração pública. Recordo que Jorge Sampaio tinha sido meu antecessor na liderança da Câmara de Lisboa e, como acontece a todos que passam pelas funções autárquicas, essa atração pelos assuntos do poder local nunca mais o deixou. Uma pessoa pode estar noutras funções, pode não querer regressar à administração local, mas o interesse por essas matérias nunca desaparece. Por isso mesmo, na prática, estávamos na Mairie de Paris na conversa entre dois presidentes de Câmara e um ex-Presidente de Câmara que na altura já era Presidente da República.

PS: Todas as personalidades aqui referidas e todas as impressões aqui transmitidas são aquelas que respeitam ao que foi vivido neste período entre 2002 e 2005. O que eles fizeram de bem ou de mal depois desse período é outra questão e em nada influencia a escolha dos eventos aqui retratados. Trata-se de pessoas com quem me cruzei nessa época e transmito aqui a impressão que me causaram. Vários desses personagens, quer os que falei no início destas crónicas, no meio, quer os referidos nas semanas mais recentes, nunca mais os encontrei, nunca mais falei com eles e, nalguns casos, como o da última crónica, nunca mais soube nada das suas vidas, a não ser vagamente por algum jornal. Nunca esteve em causa, nem sobre os próprios nem sobre os seus adversários, qualquer tipo de avaliação, com exceção àquilo a que me refiro. Se depois desse período, pelas suas palavras ou pelos seus atos, fizeram coisas diferentes ou censuráveis, isso não é avaliado nesses textos. Não foi com Berlusconi, com Bush, com Lula, com Giulliani… Não é com ninguém.
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