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Rui Hortelão

Esqueletos e minigolfe

No século XV, Lagos era um dos maiores centros comerciais do Mundo e sede do maior mercado de escravos nacional.

Rui Hortelão 6 de Julho de 2015 às 00:33
Em 2009, os restos de 155 de alguns desses homens, mulheres e crianças foram descobertos no Vale da Gafaria, que deu o nome de gafos aos doentes de lepra ali enterrados. Se a matéria teórica já justificara até um protocolo entre a autarquia e Isabel Castro Henriques, historiadora e representante de Portugal na UNESCO – para a criação de um museu da escravatura, na linha dos que atraem turistas para Bristol, Liverpool e Nantes –, a descoberta permitia a Lagos combater o centralismo de Lisboa e Porto, e projetar-se à escala mundial, dada a raridade do que foi desenterrado. Mas a autarquia, o que fez? Não cumpriu o protocolo, transformou o terreno em algo tão diferenciador como um minigolfe e recusa expor os esqueletos por serem matéria chocante. Já se vê que os autarcas de Lagos nunca foram a Auschwitz, onde até cabelo das vítimas dos nazis está em exposição. Porque chocante é terem atirado um património arqueológico único para o sótão de uma casa em Coimbra.

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Direito de resposta
Na sequência da publicação do texto "Esqueletos e minigolfe", na edição de 6 de julho, recebeu o CM o seguinte direito de resposta do Município de Lagos: "1. Refere o artigo que "a autarquia não cumpriu o protocolo, transformando o terreno em algo tão diferenciador como um minigolfe". Importa esclarecer que a construção no local de um parque de estacionamento e a instalação posterior de um equipamento lúdico na sua cobertura nunca foram postos em causa pelas entidades que tutelam a matéria, sendo que o Município mantém o interesse no projeto "Rota do Escravo", a intenção de criar um núcleo museológico no edifício "Mercado dos Escravos" e de instalar um memorial na zona onde o enterramento dos escravos foi localizado. 2. Não está afastada a possibilidade de se expor os esqueletos, na quantidade e do modo que vier a ser definido pelo projeto museográfico em elaboração, o qual terá em atenção as características e dimensão do edifício "Mercado dos Escravos" que irá albergar o novo núcleo museológico. 3. A coleção dos esqueletos exumados no Anel Verde não está escondida, nem esquecida, mas sim em depósito provisório, para estudo, com os arqueólogos responsáveis pela escavação, de acordo como o Regulamento de Trabalhos Arqueológicos [DL 164/2014 de 4 de novembro]. A comprová-lo está o facto da coleção ter sido acedida por investigadores nacionais e internacionais".
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