Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
5
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Rui Pereira

O horror ao vácuo

Poderá ser esta a última oportunidade que o eleitorado concede aos grandes partidos.

Rui Pereira 5 de Março de 2015 às 00:30

Éatribuída a Aristóteles a afirmação de que a natureza tem horror ao vácuo e, pelos vistos, a física quântica confirma-o. Esta tese aplica-se com inteira propriedade à política. O Syriza na Grécia, o Podemos em Espanha e a Frente Nacional em França, cada qual à sua maneira, documentam a imediata ocupação do vazio gerado pelo declínio dos partidos tradicionais. De resto, todos sabemos que os resultados finais de uma eleição democrática são invariáveis: aos 100% de votos expressos correspondem sempre os mandatos previstos, só mudando os respetivos titulares.

Não creio que as próximas eleições legislativas nos tragam já surpresas de vulto. O Bloco de Esquerda não é nenhum Syriza, o nosso Podemos fica-se pelo nome e a extrema-direita faria uma festa de arromba se conseguisse eleger um deputado. Nesta conjuntura, apenas Marinho Pinto e o seu Partido Democrático Republicano ameaçam fugir à lógica do condicional e do conjuntivo, prometendo um resultado próximo dos dois dígitos. Para formar Governo deveremos contar, mais uma vez, com o Partido Socialista ou, num cenário mais improvável, com o Partido Social Democrata.

Poderá ser esta a última oportunidade que o eleitorado concede aos grandes partidos. Se, como tudo indica, o PS vencer as eleições (com maioria relativa), ninguém lhe perdoará promessas por cumprir. Por isso, parece mais prudente exercer o direito ao silêncio e aguardar a derrota alheia. António Costa pressente-o e talvez isso explique o seu relativo apagamento após ter sido eleito Secretário-Geral por uma maioria expressiva. Mais vale arriscar e perder as próximas eleições do que vencê-las à custa de embustes e ser depois projetado no caixote de lixo da História.

Mas há limites para o silêncio e para o cálculo político, sob pena de o eleitorado se esquecer do significado do voto e a vacuidade do discurso dar lugar a novos protagonistas. Se, no plano macroeconómico, é difícil fazer promessas firmes (por causa da nossa eurodependência), é possível e mesmo necessário apresentar orientações políticas claras e propor medidas alternativas, por exemplo, em sede de justiça, saúde, educação e cultura. É esse o caminho a seguir, tal como sublinhou Freitas do Amaral numa entrevista recente que gerou saudades dos políticos de outrora. 

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)