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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Rui Zink

Nem oito nem oitenta

Mas é isso mesmo que devemos fazer: ter calma. É assim que se salvam vidas, as dos outros e a nossa.

Rui Zink 15 de Março de 2020 às 00:30
Não me armo em herói. Sou o que se pode chamar um paranoico informado. Tenho em casa dois garrafões de cinco litros, um pacote de arroz e três latas de atum. Mais não, ainda acabo a enjoar do atum. E, sim, também alguns rolos de papel higiénico. Mas, por amor da santa, o vírus chama-se Covid-19, não Cuvid-19. Se o fim do mundo vier aí, não serão os rolos de papel higiénico que nos irão salvar.

O pânico é que causa o pânico. Bem sei que é difícil sair ordeiramente dum recinto desportivo quando há uma ameaça de bomba ou de ruir uma bancada. Mas é isso mesmo que devemos fazer: ter calma. É assim que se salvam vidas, as dos outros e a nossa.

No Japão, quando foi do acidente nuclear de Fukushima em 2011, o terramoto paralisou também os transportes em Tóquio, mas ninguém foi a correr comprar 300 rolos de papel higiénico. Pelo contrário, aquele povo habituado a lidar com catástrofes regressou serenamente a casa. Milhares e milhares de pessoas indo a pé, distâncias de 30 quilómetros ou mais, com o credo na boca mas também a calma possível, sabendo que, se começassem a pilhar lojas, seria pior. E, como sempre acontece, passada a tempestade a calmaria voltou.

A regra do ‘cada um por si’ não é só selvagem, é parva. Mais parvo só ir andar a 300km à hora para uma avenida e esperar que nada aconteça.

Na minha vida, já assisti a muitas situações de pânico. A multidão que, tendo ouvido o que julgou ser um tiro (afinal, era o pneu de um carro) desata numa correria e, com medo de morrer, mata dezenas de pessoas, pisando-as como uma manada desenfreada de búfalos. Estou talvez a exagerar, mas anda por aí um vídeo viral (isso mesmo: viral) que mostra uma série de gente a lutar por um pacote de fraldas. Foi nos Estados Unidos, país que tem sempre o melhor e o pior em tudo, mas quem não se lembra do açambarcamento cómico de gasolina há uns meses, cá? Ah, pois é.

Era uma maravilha se o governo pudesse pôr uma tabuleta (ou lançar uma lei) a suspender todas as outras doenças, sob pena de coima ou prisão até 30 dias. Mas não é assim que a coisa funciona. Infelizmente, os outros males não tiram férias – as mortes absurdas de jovens na estrada, por exemplo. Simplesmente, de momento, o coronavírus tornou refém a nossa imaginação.

História de Vida
Estamos juntos
Estas semanas são o ponto de rebuçado: devemos ter algumas cautelas, para não precisarmos mais tarde de cautelas totais. Aproveitar o bom tempo para passear nem será mau, já a bazófia do apertar as mãos só para mostrarmos que não somos medricas é ridícula. A economia e a saúde mental agradecem. As próximas semanas serão decisivas, e ninguém está a salvo. O mundo virou um só. Com sorte (mas atenção, não sou médico) com o calor a coisa melhorará. É a altura para ‘comprar local’: eu tenho o imenso privilégio de ter boas mercearias e lojas e cafés no bairro onde moro. Habituei-me a gastar dinheiro perto de casa nos anos da troika. Era do meu interesse que o bairro não morresse. Foi remédio santo: redescobri o prazer da boa vizinhança. E, graças à divina arte da Cristina, passei a comer melhor.

Um gesto nobre
Calar Woody Allen
O caso da manifestação de jovens bem-pensantes que confundem ‘achar’ com ‘saber’ é de uma arrogância assustadora. Os EUA estão hoje reféns do puritanismo, ora de direita, ora de esquerda. Trabalhadores do grupo editorial Hachette conseguiram parar a publicação de um livro de Woody Allen. Os moços têm a Certeza Absoluta de que ele abusou da filha de sete anos, apesar de ter sido alvo de julgamentos, avaliado a pente fino, milhares de páginas, que o ilibaram. Passámos de um tempo em que as vítimas não tinham grande voz para um, quase tão mau, em que o acusado é automaticamente culpado. E não é "a ditadura do politicamente correto", é apenas mais do mesmo com roupagens diferentes. Um tempo houve em que a acusação de ‘herege’ ou ‘comuna’ ou ‘judeu’ ou ‘bruxa’ tinha um efeito ainda mais chato.

Generosidade ou esperteza?
O presiden te do conselho de administra ção do BCP aproveitou o pânico para comprar 500 mil ações do próprio banco que superiormente dirige. Ou não dirige, porque é presidente não executivo. Não sei o que pensar: se o fez em benefício do banco é bonito, se próprio já nem por isso.

Nepotismo ou competência?
É muito difícil enten der como o filho do euro deputado Pedro Silva Pereira é "a pessoa certa" para um cargo de adido técnico principal em Bruxelas, dado que teve nota negativa quando concorreu à carreira diplomática. Ser filho de polí tico não pode ser impedi mento, mas haja noção.

Razão da fé ou fé na razão? 
Este vírus não gosta mesmo da comunhão humana. Agora, até nas igrejas deixou de haver água benta, por sensata precaução. E a bolacha da comunhão não vai ser dada com a mão. Dá gosto ver que as religiões (a maioria, pelo me nos) já deixaram de desdenhar da saúde pública. Parabéns.
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