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Sérgio Pereira Cardoso

O polícia ladrão

"Ah, mas nós não temos dinheirô, parce que chegámos agora de France’, disseram as duas turistas, numa frase totalmente inventada pelo autor deste texto”

Sérgio Pereira Cardoso 7 de Agosto de 2016 às 01:45
Hoje é dia de inovar. Tantas histórias de crimes e os finais demasiadamente parecidos, quais contos de princesas. O polícia invariavelmente com o final feliz e o pobre do ladrão atrás das grades ou, pelo menos, com umas algemas prateadas a adornar os pulsos. Hoje, não. Hoje é dia de recordar um exemplo de que, por vezes, a farda não é sinónimo de pureza. Agente Mouco de seu nome, ouviu com clareza, em 1996, a juíza decretar-lhe 18 meses de prisão pelo crime de corrupção passiva.

O caso tem lugar dois anos antes. Mouco, em serviço de giro numa motorizada da PSP, intercetou duas turistas francesas em plena avenida dos Aliados, no Porto. O homem até começou por fazer o seu trabalho, já que as jovens seguiam sem cinto de segurança, pelo que em total inconformidade com a lei. Ora então, faz favor, a multa é de 20 contos, perdoem-me o francês. Confiando que as meninas desconheciam a legislação em vigor, disse-lhes que o pagamento teria de ser feito, obrigatoriamente, na hora.

"Ah, mas nós não temos dinheirô, parce que chegámos agora de France" disseram as duas turistas, numa frase totalmente inventada pelo autor deste texto. Sem problema, o agente Mouco indicou-lhes a caixa Multibanco mais próxima do local para procederem ao respetivo levantamento. Assim o fizeram. Para comprovar o pagamento, o polícia até se deu ao trabalho de passar um recibo, no qual constavam o seu nome e a esquadra onde trabalhava. Exemplar, não fosse o facto de ser tudo falso.

O que é certo é que as mulheres lá desembolsaram a quantia – 100 euros nas contas de hoje –, que o agente guardou no seu melhor bolso. Só que, desconfiadas de toda a situação e da pressa com que o sr. Mouco lhes exigiu o dinheiro, as duas gaulesas acabaram por tomar a decisão de ir ao Comando da PSP. Aí descobririam rapidamente que a identificação e o nome do polícia nem sequer existiam. E, assim sendo, também seria ‘très difficile’ chegar a um suspeito.

Cabisbaixas, as turistas já se dirigiam para o exterior quando receberam a prenda das férias. O agente enganador estava a entrar no Comando, ao mesmo tempo que elas saíam. Mouco ainda se fingiu de cego, mas as mulheres não o deixaram passar. O caso chegou a tribunal e o polícia ladrão foi passar 18 meses de férias à cadeia. Pensão completa. Tudo por 100 euros.
avenida dos Aliados Comando da PSP
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