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Sérgio Pereira Cardoso

Desculpem, mas faleci

"O defunto continuava, post mortem, a ser indiciado por burlas e coisas bonitas do género. Milagre."

Sérgio Pereira Cardoso 27 de Novembro de 2016 às 01:45

"Aqui jaz Alfredo. Recordação de esposa, filhos, netos, mãe, irmãos e cunhados." A lápide, no cemitério de Valadares, em Vila Nova de Gaia, parece deixar pouco espaço a dúvidas. Ali jaz Alfredo, a foto é de Alfredo e a data de nascimento é a de Alfredo também. Paz à sua alma. Mas uma coisa não batia certo: o defunto continuava, post mortem, a ser indiciado e procurado por burlas e coisas bonitas do género. Milagre.

Ou nem por isso. Comecemos pelo fim. De Alfredo, no caso, supostamente falecido em meados de julho de 2008. Causas desconhecidas. Curiosamente, durante o ano seguinte, chegariam às esquadras da PSP mandados de captura com o nome do homem, foragido à Justiça, com uma pena de prisão por cumprir e vários processos para responder. As diligências dos agentes esbarravam na garantia de familiares: desculpem lá, mas ele já pereceu. Comprovativos? Zero, a não ser aquela lápide.

Dois factos deixaram os polícias desconfiados: primeiro, a pouca convicção de alguns dos testemunhos recolhidos; segundo, as notificações continuavam a surgir, e de casos cada vez mais recentes, alegadamente envolvendo o morto. As posteriores diligências desenterraram a história: a 17 de julho de 2008, quem foi a sepultar foi, afinal, Vítor, o irmão de Alfredo. Assim consta na certidão de óbito do Hospital de Vila Nova de Gaia, também a dona da agência funerária garantia que a foto na lápide não era a do defunto e, finalmente, até nos registos do cemitério o nome é – que rufem os tambores – o de Vítor!

Igualmente interessante é que o verdadeiro falecido, segundo os documentos que a PSP recolheu, era solteiro e não tinha, pelo menos à altura da morte, quaisquer filhos conhecidos, que justificassem uma ‘recordação’ tão bonita como a que constava naquela campa. "O jazigo é da mãe de Vítor e ele foi sepultado a 17 de julho de 2008. Temos o processo, que inclui a certidão de óbito. Está tudo correto. O que se passou depois não sabemos. As pessoas decoram-no como quiserem", disse, na altura, o presidente da Junta.

Ora, neste caso, as pessoas, aparentemente, decoraram o jazigo com a foto e o nome do irmão vivo. Modernices. Certo é que, até hoje e apesar das garantias dos familiares, nunca os tribunais ou a polícia receberam qualquer confirmação ou documento que comprovassem a morte de Alfredo. A suspeita é de que terá fingido a morte para poder estar em casa, sem a Justiça a chatear. Que descanse em paz. 

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