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Sérgio Pereira Cardoso

Não roubarás o padre

"Aparentemente, o povo não estava muito interessado em oferecer a outra face ao ladrão."

Sérgio Pereira Cardoso 6 de Março de 2016 às 01:45
O desrespeito pelo sétimo mandamento é, factualmente, o que providencia material para que esta página exista. Mas, se ir contra o ‘Não roubarás’ já é pecado suficiente, o que dizer de um assalto à própria casa de um representante de Deus?

Certamente ateu, um jovem de 21 anos não teve problemas em invadir a residência do padre de Mascarenhas, uma freguesia de Mirandela. Também certamente pouco dado à inteligência, fê-lo por uma janela da frente, durante a tarde do dia 28 de agosto de 2014. Como o caso ainda não tinha contornos religiosos suficientes, foi visto por Maria Madalena, uma moradora daquela localidade, que deu o alerta.

Antes de a situação chegar à GNR, chegou aos ouvidos de muitos populares de Mascarenhas. Num instante se alinhou uma tropa de quase 200 elementos a rodear a casa do padre António Júlio Cruz, também ele avisado do que se passava. Aliás, só a rápida presença do sacerdote permitiu que a justiça popular não se fizesse sentir no máximo esplendor. Aparentemente, o povo não estava muito interessado em oferecer a outra face ao ladrão.

"O senhor padre entrou com a GNR e, depois, veio cá fora pedir que nada fizessem ao rapaz", descreveu, na altura, Maria Madalena. O pedido acalmou a multidão no largo da igreja, mas ninguém arredou pé até verem o suspeito a ser levado pelos guardas. Ainda por cima, era uma cara já conhecida – um assaltante de profissão, residente em Lamas de Cavalo, freguesia de Alvites, e que gostava de atuar no concelho.

Durante a avaliação feita a eventuais prejuízos, o padre deu pela falta de cerca de 15 mil euros. Questionado sobre esse desaparecimento, o jovem disse que chegou a estar com as notas na mão, mas que, ao ver-se encurralado e sem escapatória possível, atirou tudo por uma janela da casa. Milagre dos milagres, o dinheiro não foi encontrado, suspeitando-se que o homem o teria já entregado a um eventual comparsa ou escondido numa parte da residência, tendo em vista uma posterior visita ao padre António Júlio.

Balanço final: o rapaz foi detido ainda no interior da casa paroquial, transportado para a GNR de Mirandela e depois a tribunal, onde veio a admitir que tinha por objetivo furtar bens valiosos. Apesar da confissão e da clemência do sacerdote, será pouco provável que o castigo judicial tenha passado por rezar Ave-Marias ou Pais-Nossos.
GNR Mirandela crime lei e justiça
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