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Sérgio Pereira Cardoso

O carteiro do amor

“Os juízes estavam quase a verter uma lágrima, quando o arguido começou a explicar que não era amor à cônjuge. Era a outras duas...”

Sérgio Pereira Cardoso 2 de Outubro de 2016 às 00:30
Cartas de amor, quem as não tem? Tão bonito e ao mesmo tempo tão desatualizado, o tema eternizado pela belíssima voz de Tony de Matos. Se fosse hoje, a letra da histórica canção teria de derivar para ‘Um match no Tinder, quem o não tem?’, ou ‘Uma conversa no WhatsApp, quem a não tem?’.

É no meio deste pensamento sobre a atual inércia na correspondência romântica tradicional que me recordo da história de Acácio, o Don Juan dos funcionários dos CTT, ou, para simplificar e e até dá jeito para o título lá de cima, ‘o carteiro do amor’, condenado, em 2008, pelo Tribunal de S. João Novo, no Porto, a seis anos de cadeia.

O processo em causa, grosso modo, explica-se assim: entre 2001 e 2003, 14 pessoas estiveram envolvidas no ‘desaparecimento’ dos Correios de 336 cheques e vales da Segurança Social, num valor total de 118 mil euros que lucraram, por exemplo, à custa de pensionistas. Foram todos apanhados e levados a julgamento. Entre eles, Acácio, de Vila Nova de Gaia, que quis justificar à justiça o porquê de ter desviado o dinheiro: foi tudo por amor.

Comovente, ainda mais para um homem casado há anos. Os juízes estavam quase a verter uma lágrima de emoção, quando o arguido começou a explicar que não era amor à cônjuge. Era a outras. Outras? Sim, duas, que o carteiro ama sempre duas vezes. "A Maria e a filha da Joaquina", pormenorizou o homem, confessando que chegou a arrendar um apartamento para poder estar com ambas as amantes. "Fiquei tresloucado. Não tinha noção daquilo que estava a fazer", disse ao coletivo, desconhecendo-se se falava só sobre os crimes ou das dificuldades de um ‘ménage à trois’.

A questão é que estas mulheres não alimentavam a paixão através de palavras bonitas, flores ou chocolates, mas antes com recurso a notas de três dígitos. O carteiro teve mesmo de se fazer à vida. Caso tudo isto lhe pareça bastante censurável da parte de um funcionário dos CTT, tem toda a razão. Porém, calma. Acácio possuía valores. "Nunca roubei a quem entregava cartas. Não conseguiria fazer essa maldade", referiu, no seu auge deontológico e para sempre alterando o sétimo mandamento de Deus. ‘Não roubarás – a quem entregas cartas. De resto, à vontade."

Apesar da digna história de amor e do respeito ao seu giro, o carteiro foi encaminhado para seis anos de cadeia. E aí, paciência, Acácio, mas visitas conjugais, só mesmo com uma mulher de cada vez. Conjugais, que é como quem diz... l
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