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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Sérgio Pereira Cardoso

O pescador da caçadeira

"Aos dois Xanax que já tinha tomado de madrugada, Nelson aviou mais outros dois. Agora, sim, pronto. E extremamente tranquilo."

Sérgio Pereira Cardoso 30 de Outubro de 2016 às 01:45

Exemplos há muitos. Recordo-me, nos anos 90, de acompanhar de lábios fechados – e assim até que nem sou tão mau – o ‘Mmm mmm mmm mmm’ dos Crash Test Dummies ou, mais grave, de tentar imitar a dança da ‘Macarena’, dos Los del Rio.

E o que é que isto tem a ver com ladrões? Nada. Ou tudo, já que há criminosos que também se tornaram conhecidos por uma, e apenas uma, atuação. Foi o caso de Nelson, em Samora Correia, corria dezembro de 2011. Interessa explicar o contexto: este homem, então com 37 anos, estava desempregado há vários meses e, desesperado, decidiu assaltar um banco. Pelo menos, assim o explicou durante o julgamento. Se a ideia já era má, a execução ainda foi pior.

Primeiro, escolheu um disfarce: pescador. Mas não um qualquer. Um pescador gordo e espanhol. Por dentro de um pijama e na zona da barriga, colocou uma almofada. Acrescentou um casaco, um gorro, cachecol e óculos de sol. Na mochila, três canas de pesca e uma caçadeira – não vá passar uma perdiz enquanto se espera que algo morda o isco. Tudo pronto? Não. Aos dois Xanax que já tinha tomado de madrugada, Nelson aviou mais outros dois. Agora, sim, pronto. E extremamente tranquilo.

11h20. Entrou no Millennium BCP e fingiu ser cliente. Com quatro Xanax na cabeça, uma fila aguenta-se com outra facilidade. Até que o efeito terá passado e o falso pescador pegou na caçadeira, disparando para o tecto. "Es un assalto! Diñero!", gritou, mais coisa menos coisa, numa performance Jorgejesusiana.

"Não queria que me reconhecessem e lembrei-me do ‘El Solitário’, foi por isso que falei em espanhol", viria a justificar aos juízes. Aliás, justificações nunca faltaram a Nelson no Tribunal de Benavente. A caçadeira? "Comprei-a para fazer tiro ao alvo perto de casa." E o silenciador construído de um tubo de escape? "Para não incomodar". Vizinho do ano.

Antes de sair do banco com 15 mil euros e quatro mil dólares, agradeceu ao funcionário, pediu perdão e benzeu-se. As preces não foram ouvidas. A GNR estava ali perto e rapidamente lhe deitou a mão. Contas finais: sete anos e três meses de cadeia, mais 1265 euros pelos estragos no banco. Péssimo dia de falsa pescaria.

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