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Tiago Rebelo

A aposta

Há sempre uma primeira fila lotada por jovens ousadas que não hesitam em exibir quase tudo o que têm.

Tiago Rebelo 29 de Março de 2015 às 00:30

Ele é um tipo extremamente bem parecido e, consequentemente, bem sucedido com as mulheres. O seu trabalho na universidade, enquanto jovem professor, não podia ser mais oportuno, dado que as suas aulas, onde pontificam dezenas de raparigas desejosas por lhe agradar, oferecem-lhe um mundo de possibilidades nesse campo. Com efeito, nas aulas dele há sempre uma primeira fila lotada por jovens ousadas que não hesitam em exibir quase tudo o que têm para mostrar.

Usam saias curtas, seguras da perfeição dos seus corpos e conhecedoras do desnorte que a visão das suas pernas pode provocar num homem. Não obstante, ele é mestre a simular uma indiferença total e, enquanto debita a lição com graça e sabedoria, passeia-se para diante e para trás ao longo da plateia que o escuta e nem por uma vez se fixa num único par de pernas, nem sequer naquelas bem torneadas pelos colãs escuros que se insinuam por baixo de uma saia de colegial.

A rapariga usa franja e o cabelo liso cortado abaixo dos ombros. Fixa-se no professor e provoca-o com olhares sensuais. Mas ele prefere concentrar-se algures no meio da plateia, por cima das cabeças dessas belas alunas, enquanto brinda a audiência com saídas espirituosas que arrancam boas gargalhadas aos alunos e deslumbram as raparigas.

Justamente, a rapariga de franja e saia de colegial bate-lhe à porta do gabinete após a aula, quando ele se prepara para corrigir testes. Mete a cabeça para dentro, pedindo licença para entrar, e só depois surge em todo o seu esplendor, como se o corpo dela seguisse aquele rosto iluminado com um grande sorriso. Senta-se à frente dele, no outro lado da secretária, abre o livro da disciplina numa determinada página, coloca-o entre os dois e debruça-se por cima da mesa para lhe indicar uma matéria que não entende.

O professor repara no exagerado decote da aluna, que se torna ainda mais flagrante naquela posição. Nesse momento, percebe que ela não está interessada em tirar dúvidas, mas em conquistá-lo, e tem a certeza de que vem para ganhar uma aposta qualquer que fez com as colegas. Chamemos-lhe intuição, o motivo que o leva a pensar isso. De modo que o instinto leva-o a chegar-se para trás na cadeira e a limitar rigorosamente a conversa ao assunto que supostamente a traz ali. Mas quando ela vai a sair, não resiste e diz: Se não tivesse sido tão óbvia, talvez tivesse ganho a aposta.

Ela volta-se, surpreendida, e depois solta uma gargalhada e diz com presunção: E o professor teria ganho a sorte grande, portanto perdemos os dois.
 
crónica de Tiago Rebelo conto história de amor
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