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Tiago Rebelo

À espera do metro

Senta-se num banco da estação à espera que o metro passe. Foi um longo dia com trabalho extra que o obrigou a ficar no escritório até mais tarde.

Tiago Rebelo 7 de Setembro de 2014 às 00:30

Só lhe apetece regressar a casa, comer qualquer coisa, cair no sofá e adormecer frente à televisão. A estação encontra-se vazia àquela hora e os comboios demoram um pouco mais a aparecer, porque de noite circulam menos. Uma mulher aproxima-se, atraindo a atenção dele pelo barulho dos saltos das suas botas a ressoarem no espaço vazio. Levanta a cabeça, observa-a. Ela vem distraída a manusear o telemóvel com as duas mãos. Senta-se no banco ao lado, cinco metros à direita dele. É bonita, usa calças de ganga e uma camisa branca sem mangas com um decote negligente. Ela nota a presença dele, vira a cabeça, oferece-lhe um sorriso, volta a concentrar-se no telemóvel. Ele fica a pensar naquele sorriso. É um sorriso inocente, educado, sem segundas intenções, que só aconteceu por estarem apenas os dois naquela estação imensa. Ele tem um sorriso também, a pensar que podia aproximar-se dela e meter conversa. Nos velhos tempos teria feito isso mesmo. Suspira. Apetece-lhe ir falar com a mulher, seria muito melhor se acabasse a noite com ela em vez de ir dormitar para o sofá da sala. Mas ela não terá mais de trinta anos e ele o dobro da sua idade. Apercebe-se de que ela só o cumprimentou porque o achou inofensivo, caso contrário ter-se-ia afastado. Tem tudo a ver com a sua idade e com o seu aspecto envelhecido. Enfim, envelhecido aos olhos dela, naturalmente, porque ele não se sente nada velho. Uma pessoa não repara na sua verdadeira idade, a não ser quando os jovens começam a tratá-la com a deferência reservada aos mais velhos. E ele já passou há muito a época em que isso começou a acontecer-lhe. É uma ingenuidade pensarmos que somos como nos sentimos, porque na realidade somos o que os outros vêem, pensam, ganhamos comportamentos compatíveis com a idade que temos e não nos vale de nada acreditarmos que mantemos o espírito jovem. Uma vibração sonora de carris começa a invadir a estação e ele levanta-se à espera do comboio. Ela faz o mesmo. Ele dá dois passos em frente. Ela espera. O metro surge do túnel escuro e imobiliza- -se com uma chiadeira de travões. As portas abrem-se e ele cruza-se com um tipo jovem que sai do comboio. Entra e volta-se, deitando a mão ao varão metálico para não perder o equilíbrio. As portas fecham-se, o comboio arranca, mas tem ainda tempo para ver que ela ficou no cais e que dá um abraço apaixonado ao jovem que saiu na estação. Ele abana a cabeça a sorrir e vai sentar-se com um encolher de ombros. Porém, não se tratava apenas de pessimismo mas daquilo que ele concebia como uma "longa espera" que decretou para o resto da sua vida: durante esse tempo, ele esperaria que o género humano "aprendesse" com os seus próprios erros, que voltasse atrás quando fosse necessário e, se possível, que corrigisse os erros do futuro – uma vez que o presente nunca foi uma grande fonte de alegrias. Este espírito, como pensa a minha sobrinha Maria Luísa, é altamente irritante. A Tia Benedita, que temia o regresso de Afonso Costa (ela nunca acreditou nas evidências, e ainda em 1950 era difícil convencê-la de que o demagogo republicano tinha desaparecido do número dos vivos), de vez em quando representava esse papel, sugerindo que o que fazia realmente falta era "um governo de carbonários". O velho Doutor Homem, meu pai, era ainda mais radical porque lhe sobravam a ironia, a soberba intelectual e o dandismo da sua juventude (que nunca perdeu). Revelando tudo o que pensava do sistema político, do regime e das soluções para os grandes mistérios da vida portuguesa do final da década de sessenta, o velho advogado recomendou que, para substituir o dr. Salazar (desdenhar do presidente do conselho tinha sido uma das suas obsessões principais), o ideal era escolherem a D. Maria Pia. Durante meses, abrindo o jornal e reparando na fotografia do prof. Marcello Caetano, ele repetia, em surdina: "Vamos então saber como vai a saúde de Sua Majestade, D. Maria Pia." No final da vida julgava-se um anarquista que ria demasiado do seu tempo. Na verdade, apenas desprezava o horror em que todos vivíamos.

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