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Tiago Rebelo

Cartas de amor

A fantasia das cartas tornou-se tão excitante que ele propõe-lhe um encontro secreto.

Tiago Rebelo 22 de Fevereiro de 2015 às 00:30

Ela vai aos correios levantar uma encomenda que fez pela internet e, enquanto espera pela sua vez, interroga-se se ainda haverá pessoas que escrevam cartas de amor. E, encorajada por esse pensamento, decide enviar uma. Compra o papel, escreve a sua declaração de amor. Já vai a fechar o envelope quando se apercebe de que não assinou a missiva. Hesita um instante com um sorriso pendente, um pensamento ousado, retira lentamente a fita que protege a cola, fecha o envelope sem assinar, envia a carta anónima.

Ele está sentado à secretária no escritório. Ao seu lado tem uma pilha de envelopes fechados, correio atrasado que se vai acumulando porque não tem paciência para o abrir à medida que chega. Porém, há um no topo da pilha que lhe chama a atenção, pois tem o endereço escrito à mão. Curioso, abre-o e lê a carta. Em pânico, revira o papel e o envelope à procura de uma pista que denuncie o remetente, debalde. Não está assinada e vem de uma caixa postal. Pega então no telemóvel e envia uma mensagem à amante: "Escreveste-me uma carta?" A resposta não se faz esperar: "Uma carta? Não!"

Respira fundo, sente o ardor do rosto a desvanecer-se, o coração a sossegar, limpa a transpiração na testa com as costas da mão. Agora que já sabe que a carta só pode ser da mulher, pensa tranquilamente como reagir.

Tem uma inspiração: escreve-lhe a resposta à mão num papel e, sem comentar o assunto em casa, no dia seguinte passa pelos correios e envia também a sua declaração de amor anónima para a caixa postal.

Inauguram assim uma tradição só deles, que vão cumprindo regularmente. Mas nunca falam do que dizem por escrito. As cartas transformam-se numa fantasia, como se ela tivesse o seu amante e ele a sua. Bem, ele teve mesmo um caso, mas acabou com isso há uns meses, para descanso seu e consternação dela, porque este novo jogo erótico reacendeu nele o entusiasmo com a mulher.

A fantasia das cartas tornou-se tão excitante que ele propõe-lhe um encontro secreto a meio do dia, numa praça junto ao rio. Ela aceita, marcam a data, ele leva-lhe flores. Porém, quando se aproxima do lugar combinado percebe que não é a mulher quem o espera, mas a amante rejeitada. Que fazes aqui? – pergunta-lhe, atónito. Ela mostra-lhe a carta dele. Foste tu, este tempo todo?! Fui, confirma ela, e agora, qual das duas preferes afinal? E ele, a sentir o chão fugir-lhe debaixo dos pés, só pensa como foi enganado. E o mais irónico é que voltou a apaixonar-se pela mulher por causa das cartas da amante! 

crónica de Tiago Rebelo conto história de amor
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