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Correio da Manhã

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José Carlos Marques

“Enfermeiro morreu a ajudar camarada”

Chegámos ao lago Niassa no momento em que a guerrilha começou a atuar na região. Tentávamos ajudar as populações

José Carlos Marques 19 de Julho de 2015 às 00:30

A minha incorporação na tropa começou logo da pior maneira. Em 1964, fui integrado na Marinha, por erro administrativo. Após uma série de incidentes burocráticos, acabei por ingressar no Exército só no ano seguinte. Fiz a recruta no CICA de Coimbra, onde me especializei em condução auto, e depois passei pelo Regimento de Cavalaria 6, no Porto, e depois pelo Hospital Militar, naquela cidade. Em outubro,  o nosso batalhão foi mobilizado para as três frentes de batalha: Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. À nossa companhia, a C. Caçadores 1478, coube o destino de Moçambique, para onde partimos de barco em outubro de 1965.

As minhas funções na companhia eram as mais diversas. Supostamente, deveria concentrar-me na condução dos Unimog e Berliet que levávamos pela primeira vez para Moçambique, mas, como havia muitos camaradas que não sabiam ler nem escrever, fiz todo o tipo de serviço. Participei nas missões da psicossocial, em que procurávamos ‘ganhar’ as populações nativas para o nosso lado. Inicialmente, a companhia foi colocada na região de Maniamba, no Norte de Moçambique, junto ao lago Niassa. A nossa chegada coincidiu com o início da atividade da guerrilha nesta zona. Fazíamos muitas deslocações aos quartéis de Metangula, Meponda ou Mandimba, sempre com receio das minas que os guerrilheiros colocavam nas picadas.  

 

A fazer casamentos 

Das memórias que guardo da guerra, as missões da psicossocial eram as que mais me faziam sentir que estávamos a fazer alguma coisa por aquela gente. Tentávamos ensinar os nativos a ler, àqueles que conseguiam ler o padre nosso chegávamos a emitir documentos de identificação. Organizávamos festas nas comunidades, chegámos a ‘apadrinhar’ casamentos entre os africanos. Eu era o fotógrafo de serviço da companhia e registei dezenas de momentos em que conseguíamos deixar a guerra de parte.

Uma das missões mais frequentes que tínhamos era a escolta das colunas de abastecimento. Lembro um episódio que aconteceu quando fazíamos a ligação de Vila Cabral, onde ficava a sede do distrito, para um dos quartéis da zona do lago Niassa. Seguíamos para norte quando caímos numa emboscada do inimigo. O tiroteio foi tal que só conseguimos procurar abrigo debaixo dos camiões, onde permanecemos toda a noite. Só de amanhã, com o apoio da aviação, conseguimos sair daquele inferno.

A nossa companhia teve duas baixas mortais. Uma delas era um cabo enfermeiro, que teve o infortúnio de pisar uma mina quando ia socorrer um camarada. Foi o pior momento que vivi na guerra. Ele era da minha zona e fui eu que tive de dar a triste notícia à família. A outra vítima mortal foi um soldado que disparou acidentalmente a sua própria arma.

Ao fim de um ano no Norte de Moçambique fomos colocados em Mecuburi, na região de Nampula, já perto do oceano Índico, onde a guerra ainda não tinha chegado. Aí vivemos dias bem mais tranquilos e pudemos desfrutar da boa vida que Moçambique podia oferecer. Regressei a casa em 1967, mas haveria de voltar a Moçambique em 1969, já como civil, onde trabalhei na construção da barragem de Cahora Bassa. É um país que guardo no coração.

Daniel Pereira

Comissão  

Moçambique, 1965-1967

Força  

Cª Caç. 1478

Atualidade 

Aos 71 anos, Daniel é casado e tem três filhos e dois netos. Aposentado da indústria automóvel, vive na zona de Cascais

A minha guerra Daniel Pereira Moçambique guerra colonial
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