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Tiago Rebelo

O casal inseparável

Ele prometeu que tratava de alguns assuntos urgentes.

Tiago Rebelo 9 de Agosto de 2015 às 00:30

Ela diz que ele é um mequetrefe, que quer dizer um sacana do pior, mas ela sempre gostou de usar palavras de espantar com toda a naturalidade do mundo. Por exemplo, diz de uma amiga que a achou sorumbática quando pretende demonstrar a sua perplexidade com a tristeza da outra. Ou comenta que ele está meditabundo se o vê pensativo.

Enfim, a palavra de hoje é mequetrefe, és um mequetrefe, atira-lhe furiosa. Sou o quê?! Espanta-se ele, sem ter ideia do que quer dizer tal palavrão, embora deva ser algo de insultuoso, ou pelo menos pouco simpático, pelo tom que ela emprega para o dizer. Está zangada, isso está, e ainda fica mais irritada porque ele reage com um sorriso dúbio, como se estivesse a fazer pouco dela sem o demonstrar abertamente.

Querida… começa a apaziguá-la, eu só…

Não me venhas com a querida, interrompe-o, para o pôr na linha. Isto tudo porque ele prometeu que tratava de alguns assuntos urgentes durante a semana e agora descobriu que não resolveu nem um, apesar de lhe ter garantido com toda a convicção que estava tudo arrumado. Não te preocupes com isso, já tratei de tudo, disse-lhe.


Ela é obcecada em ter a vida sempre arrumadinha, odeia estar em falta; ele é demasiado descontraído e mente-lhe descaradamente. Isso deixa-a duplamente furiosa, por ser irresponsável e por lhe mentir.


Justamente, são o oposto um do outro, de tal forma que é um mistério como é que continuam casados ao fim de tantos anos, quinze, e uns quantos meses. Mas quem é que anda a contar, diz ele quando falam disso. Ela não conta, sabe simplesmente, exactamente, quantos anos, meses e dias.


Ele não sabe as datas dos aniversários dos filhos, ela sabe até as horas e os minutos a que nasceu cada um. Sem ela, não haveria festas de anos lá em casa, pois ele não se lembraria. Não é desinteresse, é… é o que é!


Ele só faz o que quer e ela, filha única, caprichosa, deseja tanto mandar nele que anda há anos a ameaçar que o deixa. Mas não deixa, evidentemente, porque, como ele diz, depois ia rabujar com quem?

Já ele, não saberia o que fazer se não a tivesse para lhe organizar a vida. Assim, dependem um do outro para serem felizes, a mulher determinada, disciplinada, com a sua memória prodigiosa; o homem distraído, desorganizado, mas que consegue desarmá-la e arrancar-lhe o sorriso rendido com que acabam sempre as suas breves desinteligências de casal inseparável.
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