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Tiago Rebelo

Tudo ou nada

"Se não me queres para sempre, diz-me já."

Tiago Rebelo 2 de Agosto de 2015 às 00:30

O que lhes faltava para serem felizes? Para ela, só que ele fizesse o que lhe pedia. Para ele, pouco, quase nada, na realidade. Sim, dirá ela, mas isso era porque ele se contentava com pouco e não se queria comprometer, enquanto eu dizia que ou era tudo ou não seria nada, porque eu era exigente e não me arrependo disso.


Mas eu queria dar-lhe tudo, dirá ele.

Mas não quando eu queria, replicará ela.

Ela queria casar. Ele perguntava qual é a pressa?

Ela respondia que tinha pressa de ser feliz.

Ele abanava a cabeça, desconcertado. Mas não basta estarmos juntos para seres feliz?


Não, respondia-lhe, assim tenho a sensação da vida em suspenso.

Ele encolhia os ombros, isso é um disparate, dizia, temos todo o tempo do mundo para casar, não precisamos de nos apressar.


Ela irritava-se, desconfiada do desinteresse dele. Se não me queres para sempre diz-me já, não me faças perder tempo, invectivava-o.

A isto, ele suspirava, a pensar que ela vivia zangada e isso não o entusiasmava nada. Vou casar com uma mulher zangada? Não me parece. Depois, respirava fundo e tentava apaziguá-la: Eu quero-te para sempre, dizia-lhe, e o casamento não vai mudar isso. Não vai mudar grande coisa, de facto.

Então, insistia ela, se não muda grande coisa, o que te impede de casar?

A pressa, ou melhor, a pressão! Pára de me pressionar! Explodia por fim, exasperado com a sua persistência.


E ela, inflexível: Se a minha persistência te aborrece deixa estar que não te incomodo mais. Podes ficar na tua vidinha, que eu vou tratar da minha.


Separaram-se. Ela pensou que a paixão devia ser arrebatadora, devia motivá-lo, ele devia ter urgência de casar, de ter uma família. Se não tinha isso tudo, então não a amava o suficiente, ponto!


Ele pensou que se ela era assim caprichosa e dominadora antes do casamento, o que seria depois?! Não obstante, sente a sua falta porque gostava dela genuinamente, amava-a, ainda a ama.


Ela também sente a sua falta, porque tem a certeza de que ele é o homem da sua vida. Porém, é demasiado orgulhosa para voltar atrás. Não lhe vou pedir desculpa por ter tido razão, pensa.


Mas ele, ciente de que cada um tinha a sua razão, perdoa-lhe por ela continuar distante. Talvez não a recupere, pensa, mas não preciso de vitórias morais. Para mim, ela é mais importante do que isso e, quem sabe, pode ser que não fique zangada para sempre.
crónica de Tiago Rebelo conto história de amor
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