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Correio da Manhã

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Tiago Rebelo

Vale a pena complicar

O tempo não resolve nada, se não se fizer por isso.

Tiago Rebelo 30 de Agosto de 2015 às 00:30

Uma chuva de Verão abate-se ao cair da noite. Na varanda da casa perto do mar, ele fuma um cigarro enquanto observa o alcatrão molhado que reflecte como um espelho as luzes dos faróis dos carros que passam ali à frente. Aquela chuva a destempo sugere uma melancolia. De dentro chegam vozes, ouvem-se gargalhadas familiares. Ele sorri.

Em tempos eram só os dois, depois vieram os miúdos, depois as crises, as separações – três, até perceberem que, por vezes, o tempo não resolve nada, se não se fizer por isso. Pelos vistos, eles não fizeram o suficiente, pensa.


Encolhe os ombros, divertido, a pensar que as férias já não são o que eram: chove na praia e o Verão é passado com os filhos dele e os filhos dela. Ela, a nova mulher, bem entendido.


Tudo mudou ao longo dos anos, nota. A mulher, a anterior, mãe dos seus filhos, tem um novo namorado que de novo não tem nada – é uns quinze anos mais velho do que ela –, enquanto ele também tem a sua namorada, quinze anos mais nova. Foram todos à segunda volta, à segunda rodada, o que lhe quiserem chamar, e desta vez as mulheres preferem-nos mais velhos e eles preferem-nas mais novas. Sinal dos tempos que correm.


Seria tudo perfeito se a ex-mulher não embirrasse com a nova e se esta não tivesse ciúmes da outra. A primeira sentiu-se esmagada pela juventude da segunda. E esta receia que ele queira regressar ao passado. Enfim, a vida não é perfeita e, nalguns aspectos, tende a complicar-se. Há coisas que nunca se perdoam, ou talvez acabem por se dissolver com a velhice, quem sabe, mas não adianta tentar conciliar o inconciliável, porque uma não vai gostar da outra, jamais, e vice-versa.


Acaba de fumar o cigarro, espreita o céu, esperançado de que o dia seguinte nasça com as nuvens dissipadas e o Verão continue.

Entretanto, ouve-a chamá-lo pela terceira vez num tom de voz já a denunciar uma certa irritação. Faz-se tarde e adivinhem quem vai fazer o jantar. Levanta-se da cadeira resignado, vai para dentro a pensar que há coisas que não vão mudar nunca, independentemente de quem amar.


Depois do jantar, volta à varanda. Já não chove. Os miúdos estão a ver televisão e ela vem ter com ele, senta-se ao seu lado, dá-lhe a mão, faz-lhe companhia, e basta-lhe um sorriso dela, um beijo furtivo, para se sentir feliz. Está apaixonado, pensa, deslumbrado com a beleza dela, encantado com a forma como atira a cabeça para trás quando solta uma gargalhadinha, enfeitiçado com os gestos mais insignificantes. E diz de si para si que, apesar de tudo, vale a pena complicar.
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