Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas

Vanessa Fidalgo

Manel e Maria

Valia-lhe mais ter ficado calado. Pás! Levou um tabefe! Ficou mudo e quedo, com a cara à banda, à procura da mão invisível.

Vanessa Fidalgo 26 de Junho de 2016 às 01:45
O candeeiro acendeu-se outra vez de rompante:

- Sossega a cabeça na almofada e dorme, mulher!
Era a quarta ou quinta noite que Manel acordava sobressaltado com a voz da mulher, que batia sempre na mesma tecla: 
- Mas tu não ouviste? Não sentiste nada? 
Não. Ele já nem a ouvia a ela, quanto mais... Que mania tinham as mulheres de não deixar um homem que trabalha descansar, resmungaria se não estivesse já embalado a ressonar novamente.

Maria não se conformava. Desde que se tinham mudado para aquela casa, nunca mais tinha pregado o olho como antigamente. Aliás: os dias também já não se limitavam a suceder-se uns a seguir aos outros.

Às vezes, estava a dobrar a roupa e sentia ‘uma coisa’ passar no corredor. Pensou que fossem os gatos no telhado. Talvez um tivesse entrado pela porta. Chegou a procurar o bichano debaixo das camas e atrás do roupeiro, mas não havia sombra de bicho nem de gente que justificasse a insónia. Outras vezes estava a arranjar o peixe para o jantar e a faca voava-lhe das mãos inesperadamente, num golpe marcial que nem parecia coisa deste mundo. Mas as noites eram bem piores.

No desenho de luz do candeeiro, via-o passar. Um vulto enorme e difuso, de nariz pencudo, que lhe espiava o sono. Nunca se atreveu a dirigir-lhe a palavra, mas um dia meteu o assunto na conversa com a vizinha. Teria ela ouvido contar alguma dessas histórias de almas penadas que atormentam gente inocente, como as que se viam nas séries da televisão por cabo? Só que a vizinha não estava para conversas.

"Aí só morava um tipo antipático. Nem dava os bons dias! Isso devem ser nervos!", diagnosticou a vizinha antes de rodar nos calcanhares e deixar a receita infalível no ar: "Olhe, reze o terço, que isso passa..."

E Maria assim fez. Mas para rezar tinha de acender a luz do tal candeeiro e então era certo e direitinho que ele voltava. Aflita, lá voltava acordar o marido. Um dia, Manel zangou-se a sério. Sentou-se na cama e ralhou com voz ensonada: "Pára com isso de uma vez por todas mulher. Estás a ficar maluca, ou quê?!"

Valia-lhe mais ter ficado calado! Pás! Levou um tabefe! Então, ficou mudo e quedo, com a cara à banda , à procura da mão invisível. Só Maria parecia ter perdido o medo: "Vês, homem!? Bem te disse para dormires menos!"
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)