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Correio da Manhã

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Vanessa Fidalgo

A doce infância

A escola foi vendida e nela nasceu uma nova habitação. Mas pobre de quem lá viveu a seguir!...

Vanessa Fidalgo 28 de Agosto de 2016 às 01:30
Lá para os lados da Batalha, havia uma casa que a todos causava arrepios. Não por causa do seu aspeto, que era até bastante banal: um edifício de linhas retas e paredes brancas, do qual apenas sobressaía uma enorme porta de madeira pintada de verde escuro, à qual se acedia por uma pequena escadaria de pedra marmoreada.

Há muito que estava abandonada mas os mais antigos ainda se lembram de que ali funcionou o antigo ciclo preparatório. Gente daquele tal tempo do ‘outro senhor’ em que as salas estavam divididas por género. Meninas para um lado, meninos para o outro. Elas entravam primeiro e saíam sempre depois dos moços, não fossem eles deitar algum olhar mais atrevido por cima dos livros e ver o que nesses tempos deveria ser bem resguardado. Lembram-se dos ralhetes, das reguadas com a ‘maria dos olhos’ quando a tabuada não estava na ponta da língua, da sopa com cheiro a peixe cozido em malgas de metal, mas também do intervalo passado a jogar ao pião e ao berlinde, dos campeonatos de atletismo, dos bolsos cheios de bichos-de-conta no outono. E talvez por isso, não hesitam em dizer que ali viveram os dias mais felizes das suas vidas.

Quando as ruas da cidade cresceram e as crianças se fizeram adultos, a velha escola tornou-se demasiado pequena e mudou-se para uns pavilhões pré-fabricados coloridos num bairro novo, que ficava no ermo de tudo.

O proprietário do edifício de fachada branca, agora já com fendas onde o musgo e a sujidade cresciam a par e passo, prometeu então dar a casa para a construção de um abrigo para crianças desamparadas. Do "mal o menos", pensaram os de lá. "Antes isso que um centro comercial ou um parque de estacionamento daqueles que engolem moedas a torto e a direito".

A verdade é que os anos foram passando, sem que as boas intenções ganhassem forma no betão, cada vez mais carcomido. Quando já quase ninguém se lembrava da promessa, a escola foi vendida e nela nasceu uma nova habitação. Mas pobre de quem lá viveu a seguir!... Dizem que os novos donos punham os móveis à noite numa posição e no outro dia de manhã encontravam-nos virados ao contrário. Que as gavetas faziam chinfrim mesmo que ninguém tentasse abri-las. E que à noite se ouviam risos e gritos de crianças a brincar, como se pelo menos elas não se importassem de regressar eternamente à casa onde um dia conheceram a terna alegria da infância…

Vanessa Fidalgo Histórias do Fantástico Batalha
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