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Correio da Manhã

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Vanessa Fidalgo

A serra encantada

Em Benquerença, Penamacor, os avós contavam aos netos que a Serra da Alagoa estava tomada por um antigo e poderoso encantamento!...

Vanessa Fidalgo 9 de Outubro de 2016 às 00:30

Diziam eles, entre sussurros e de olhos enigmáticos a reluzir por causa do fogo da lareira, que, nas manhãs de São João, uma espécie rara de mouras saía das suas grutas, esvoaçando envolta numa cortina de nevoeiro. Eram pequenas e esquivas tecedeiras que vinham estender ao sol as suas mágicas meadas de linho. Feliz daquele que ali passasse e pudesse apanhar algumas, porque ao entardecer o linho transformar- -se-ia em ouro puro!

Foi a ouvir estas histórias que as crianças se fizeram adultos, acreditando que tais criaturas vivem até aos dias de hoje encantadas nos buracos da serra. Mas pobre daquele que as seguir até ao seu recanto, pois sofrerá um terrível castigo: enfeitiçado por uma enorme serpente, ficará para sempre em pedra!

Pois numa certa manhã de São João, ao nascer do sol, quando regressava dos moinhos, passou pela Serra da Alagoa um rapazote pouco familiarizado com os contos do povo. Descansando um pouco, sentou-se na berma do caminho a perscrutar a paisagem, com a curiosidade habitual das crianças, quando viu no chão o estendal de meadas.

Foi a correr contar à mãe e esta, feliz da vida, disse-lhe que regressasse imediatamente ao local para apanhar algumas, pois sempre dariam para fazer uns bons lençóis! O menino correu com quantas forças tinha, mas quando lá chegou já só encontrou umas pegadas pequenas e fininhas, como se fossem de um ser muito leve e frágil...

Um outro lavrador de Benquerença costumava contar que, um dia, andava ele azafamado com o gado a estrumar a serra, quando ouviu um estranho rumorejar a brotar diretamente das entranhas do monte. Ora se ouvia, ora desaparecia, numa cadência misteriosa e encantatória. Pois, na sua humilde e terna ingenuidade, o homem rapidamente concluiu que o barulho mais não podia ser que as fadas do linho a tecer até de madrugada! O seu fadário só se quebraria quando algum moço atrevido e com o peito feito de coragem fosse capaz de dar um beijo à moura rainha e outro à serpente que a guarda!

Talvez por isso nunca mais foi o mesmo. Até ao fim dos seus dias, caminhou incessantemente pela serra, procurando não se sabe bem o quê nas copas das árvores, nas fragas da ribeira, murmurando qualquer coisa que ninguém entendia.

Histórias do Fantástico A serra encantada
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