Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
7

Vanessa Fidalgo

O marido enguiçado

“Achou-se muda e queda, sem saber para onde ir, a olhar para a lua cheia a subir no céu. Arrepiou-se ao ouvir um uivo horripilante”

Vanessa Fidalgo 23 de Outubro de 2016 às 00:30

Fazia-se desinteressada, fingindo a mirar os altos desenhados pelos pés no cobertor ao fundo da cama, mas perguntava-lhe a medo:

– Ó Manel, mas onde foste?

– Ó mulher, deixa-me. Olha... fui ver os bichos!

Noutras alturas, tentava apanhá-lo com mel, que é como as mulheres se saem melhor.

– Manel, já casámos há tantos meses e nunca mais saímos…. nem para o baile da aldeia! Com estas noites tão amenas, podias levar-me um dia destes contigo a ver o luar?

– Deixa-te estar sossegada, mulher! Ainda ficas doente.

Júlia ouvia desculpa atrás de desculpa e calava-se, apertando o lençol contra o peito angustiado.

Andava amargurada e enciumada com aquelas misteriosas saídas noturnas. Até lá na venda já tinham notado.

– Júlia, que se passa rapariga? Casaste há tão pouco tempo e já andas assim aos caídos? Anima-te! – dizia a patroa.

Um dia, confessou-se.

–É que ele… volta não volta desaparece, e só regressa a casa já de amanhã!

– Ó mulher e tu nunca foste atrás dele? És parva ou quê? Ou tem outra ou é enguiço! – garantiu-lhe Belmira num rompante. Pois devia ser parva, sim! Mas ia deixar-se disso...

Nessa noite esperou que ele saísse e saiu-lhe no encalço. Viu-o a curvar junto à estrada, ao pé da serração, mas perdeu--lhe o rasto assim que entrou na floresta. Achou-se então muda e queda, sem saber para onde ir, a olhar para a lua cheia a subir no céu. Arrepiou-se ao ouvir um uivo horripilante. Sentiu um aperto no peito maior que todas as suas angústias. Rodou nos calcanhares para regressar depressa a casa mas apareceu- -lhe um cãozito a ladrar-lhe aos pés. Era pequeno mas parecia raivoso e abocanhou-lhe um bocado da saia de lã!

– Ai, chispa-te daqui! – enxotou-o com o pé e correu. De terço nas mãos, aguardou a chegada do marido. Nessa manhã, porém, trazia um fio de lã preso nos dentes e uma nódoa negra na cara.

Júlia pensou e remoeu, lembrando-se das palavras de uma velha tia que costumava contar-lhe histórias de lobisomens.

– Ficas a saber… é tirar-lhes a roupa todinha e deitá-la ao forno a arder! – avisava-a.

Então Júlia assim fez. Quanto muito, só se perdiam os trapos. Dentro do forno ouviu-se um estoiro que fez Manel acordar estremunhado. Mas nunca mais voltou a passar uma única noite fora de casa, conforme se conta, ainda hoje, lá para as algarvias bandas da Fuzeta.lD

Histórias do fantástico Vanessa Fidalgo
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)