Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
4

Vanessa Fidalgo

O menino dos olhos grandes

Esta é uma história muito antiga mas que ainda hoje se conta lá para os lados de Olhão.

Vanessa Fidalgo 9 de Novembro de 2016 às 17:05
Esta é uma história muito antiga mas que ainda hoje se conta lá para os lados de Olhão. Ninguém sabe muito bem como e onde é que começou e, muito menos, porquê, mas a verdade é que se trata ainda de uma lenda viva que, desde 2008, faz até parte do arquivo português de lendas da Universidade do Algarve.

É que por ali, muitas pessoas, sobretudo nos velhinhos e soalheiros bairros de pescadores, ainda se lembram bem do tempo em que havia medo de sair à rua por causa do ‘menino dos olhos grandes’. À primeira vista, era um menino como todos os outros, exceção feita ao facto de estar sempre sozinho na rua. Aparecia por volta da meia- -noite e sentava-se num canto de uma rua com um cesto de verga no braço. O cesto até nem era a coisa mais estranha, pois naquele tempo ainda não se usavam sacos de plástico a torto e a direito e, por isso, quem queria levar os seus bens de um lado para o outro tinha mesmo de usar um cesto. Só que aquele parecia ser um fardo demasiado pesado…

Certa vez, uma mulher, farta de ver por ali o ‘cachopito’ perdido, foi ao pé dele para o ver melhor, para saber quem era e o que fazia sozinho na rua àquela hora. Ao aproximar-se, viu que ele era até pequenino mas tinha uns olhos muito, muito grandes! Tentou pegar-lhe mas não conseguiu, porque ele era muito pesado. Achou estranho, mas não pôde fazer mais nada: o menino não saía do lugar!

Então, a história foi passando de boca em boca e vários até fizeram apostas para ver quem conseguia tirar o menino daquele castigo. Mas ninguém conseguia. Até um grupo de marinheiros desistiu ao fim de várias tentativas.

Por causa disso, as pessoas começaram a ter medo de sair à rua depois de o sol se pôr. Diziam que o menino tinha um feitiço, que os seus olhos metiam medo. Havia até quem jurasse que o menino, só de olhar, podia matar. E começaram a fechar-se em casa.

Cada vez mais sozinho, por vezes o menino chorava e os pes-cadores, quando vinham do mar, abraçavam-no com pena. Quando um tentava dar-lhe colo, ele começava a pesar muito, e o homem, mesmo com toda a boa vontade do Mundo, deixava-o cair no solo. Quando caía, a terra estremecia por um segundo e o menino desaparecia num estrondo. Então, as pessoas benziam-se, prometiam ir mais à missa, arrependiam-se dos seus pecados. De nada lhes valia. Mais cedo ou mais tarde, ele acabava sempre por voltar...
Universidade do Algarve questões sociais Mundo
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)