Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
8

Vanessa Fidalgo

O olhar crítico da tia

José e Valéria tinham trocado alianças há pouco tempo na terra que ele procurou para fintar a crise.

Vanessa Fidalgo 4 de Setembro de 2016 às 01:45

De volta à terra de José, resolveram que o melhor seria aproveitar a casa vazia da falecida tia-avó dele, um apartamento frio num bairro que apesar das paredes pintadas de cores garridas nunca deixou de ser cinzento, frente ao cemitério de Gaia.

Valéria trazia no linguajar o seu português açucarado e a alma impregnada com as crenças e superstições da sua cultura do sul do Brasil. Por isso, José não estranhou quando ela começou a substituir os napperons e os bibelots de loiça da velha e falecida tia por velas aromáticas ou espanta-espíritos. Nem sequer quando ela, um pouco a medo, lhe confessou.

- Ai Zézé, não gosto nada do jeito que aquele quadro me olha...

O quadro era o retrato da matrona, pintado há umas boas décadas atrás, por um vizinho que ganhava uns trocos a fazer retratos. Traduzia bem o olhar austero e sempre crítico que José conhecera nas feições e no feitio da tia em vida e talvez por isso não o incomodava. Parecia-lhe até uma obra bastante realista, dentro do pouco ou nada que percebia de arte. Mas para Valéria, o peso daquele olhar a seguir-lhe os passos de todos os dias incomodava. E muito...

Certa noite, José chegou a casa e o quadro estava voltado para a parede.

- Mô, não leva a mal, mas é melhor assim...

José não levou a mal e um dia, quando viu pessoas a vender tralhas velhas e carcomidas numa feira no centro da cidade da cidade, achou que estava na hora de por termo às apoquentações de Valéria.

- Olha, Lelinha, vamos fazer uns trocos com estas velharias? Se nos comprarem alguma coisa, vamos jantar fora, que bem merecemos!

Valéria exultou, embrulhou as tralhas em papel de jornal e no fim de semana seguinte lá foram. Venderam quase tudo – até o quadro –, a uma velhota antipática e com olhar de corvo que nem sequer quis negociar o preço, e acabaram a jantar num restaurante recém-inaugurado de um centro comercial.

Voltaram a casa felizes e aliviados, mas quando olharam para a parede onde deveria estar apenas um prego torto, gelaram até às entranhas! Lá estava ele outra vez: o quadro da matrona pendurado, o seu olhar duro e teso, que não ia deixar assim tão facilmente o seu canto livre para alguém...

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)