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Correio da Manhã

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Vanessa Fidalgo

O relógio do avô Júlio

Não podia ter dormido uma semana inteira sentado no banco da cozinha! E o tempo não podia ter andado para trás...

Vanessa Fidalgo 10 de Julho de 2016 às 01:45
Tic-tac. Tic- -tac. Tic-tac. Raio do relógio que herdara do avó, sempre a lembrar-lhe os atrasos! Era um daqueles velhos relógio de bolso, com um barulho sincopado, metálico e irritante. Raio do dia em que decidira ser arquiteto, pensava, traçando mais umas linhas em perspetiva no projeto que devia estar em cima da mesa do diretor segunda-feira. Mas já era segunda-feira. Três e meia da manhã, mais precisamente. Passara o fim de semana todo a tentar resolver um berbicacho de diagonais e retas que teimavam em não acertar agulhas. Tivesse dado ouvidos aos pais e agora era médico, que esses pelo menos têm emprego certo!

Tinha de ir beber um café. Levantou-se e atravessou o corredor em direção à cozinha, onde pôs a água a aquecer numa cafeteira velha. Olhou o casario velho pela janela da marquise. A cidade mergulhada em silêncio. Menos ele, que continuava a ouvir o tic-tac impiedoso do tempo. O relógio estava pendurado pela corrente no armário do corredor. Foi até lá e pegou-lhe. Pobre avô Júlio... se o imaginasse naqueles apertos! O velhote, habituado às irremediáveis vontades da natureza que pautam a vida no campo, costumava dizer-lhe: "Filho, o que não tem remédio, remediado está." Naquela noite, porém, não podia dar-lhe razão. "Não avô, há coisas que não têm solução à vista", pensou sem intenção de ser ouvido.

Sentou-se na mesa da cozinha, mexeu a mistura dentro da chávena e despejou a água a escaldar. Encostou-se à parede e fechou os olhos. "Só por um momento. Só para aclarar as ideias", concedeu a si próprio.

Acordou sobressaltado, com o som das buzinas e uma discussão na paragem do elétrico lá em baixo. Um carteirista já devia ter feito o dia à conta de um turista. O pânico tomou conta dele. Que horas seriam? Pela luz do sol a rasgar a cozinha, já era tardíssimo. Como era possível ter adormecido?

A luz do telemóvel piscava. Tinha uma mensagem. Era o João, lá do escritório. "Tô? Olha, tens de desenrascar um projeto este fim de semana. Podes, não podes, pá? Era mesmo isso que eu queria ouvir!" Olhou para o telemóvel aparvalhado. O calendário dizia-lhe que era sexta-feira. Não podia ter dormido uma semana inteira sentado no banco da cozinha! E o tempo também não podia ter andado para trás… Olhou para estirador. O projeto estava lá conforme o tinha deixado. A meio da folha, um post-it dizia: "Só para a morte não há remédio. O teu avô."
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