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Correio da Manhã

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Vanessa Fidalgo

O vale assombrado

“‘Parado aqui no vale? Só se não queres seguir viagem...’, disse-lhe o tipo do chapéu, sem se virar.

Vanessa Fidalgo 21 de Junho de 2016 às 15:25
Se havia coisa de que gostava quando ia à terra dos avós era daquelas noites de verão sem fim, em que os velhotes não tinham pressa de se recolher e apareciam à soleira da porta para dois dedos de prosa e para ver com bons olhos os forasteiros. Se havia coisa de que gostava era das histórias que os velhos contavam, misturadas com as brincadeiras e a caça aos pirilampos nos bravios.

Havia um velho que vinha todos os anos, certamente quase sempre no mesmo dia de agosto, para contar sempre a mesma história. Que nunca os gaiatos "se esquecessem das horas no vale, porque quando a noite caía, o nevoeiro vinha e ele também…", dizia num tom enigmático, os olhos muitos abertos a saltarem das pálpebras enrugadas. Como nunca fora miúdo de se intimidar, perguntava-lhe sempre: "mas quem vinha, Ti João?". Ele encolhia muito os ombros, como se nem sequer houvesse resposta. "Ele… sabe-se lá quem é… o morto que se esqueceu de partir."

Passados muitos anos continuava a gostar de lá ir. A maioria dos velhos que conhecera em miúdo já tinham morrido e os velhos de agora tinham demasiado medo dos assaltos para pôr o pé de fora do alpendre, por maior que fosse o estio. E já não contavam histórias porque, quando muito, já só se lembravam das que passavam na televisão…

Ainda assim, saía de lá sempre com a alma reconfortada. E um dia saiu com mais qualquer coisa também. Raio do prego que se deve ter metido no pneu junto aos galinheiros. Não teve outro remédio senão parar na Nacional, apesar do nevoeiro e daquela humidade fria que mesmo nas noites de verão pediam um casaco de malha. Fez-se à vida. Foi buscar o macaco, levantou o pneu. Quem lhe dera ter ajuda, pensava, quando de repente ouviu um pigarrear. Voltou-se para trás mas não viu carro nenhum. Apenas um homem alto, de cara tapada por um chapéu e vestes demasiado longas e quentes para a estação. "Boa noite senhor", acenou-lhe, porque nunca fora de deixar os silêncios instalarem-se por muito tempo. "Parado aqui no vale? Só se não queres seguir viagem...", disse-lhe o tipo do chapéu, sem se virar.

"Pois, olhe… é isso mesmo que estou a tentar fazer…", disse-lhe, sem no entanto conseguir concentrar-se na tarefa. Resolveu perguntar, sem medos, como quando era puto: "e você, o que anda por aqui a fazer?" O outro voltou-se então e finalmente viu-lhe o rosto branco como a cal: "Estou à espera para te levar…"
Histórias do Fantástico vale assombrado prado
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