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Correio da Manhã

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Vanessa Fidalgo

Os milagres de Aurélia

"Durante muito tempo, vinha gente de outras aldeias rezar à santa, pedir-lhe ajuda e curar outras maleitas da alma".

Vanessa Fidalgo 21 de Agosto de 2016 às 01:45
Há mais de um século que lá para os lados de Sobral de Monte Agraço se conta a história de Aurélia e de como a desgraça cedo lhe amputou a vida, transformando-a num milagre que gente de outros tempos jura ter testemunhado.

Aurélia até era uma moça recatada e temente a Deus, mas certo dia apareceu grávida, apesar de solteira. Escandalizados, os pais contrataram um homem para enterrar de vez a vergonha que crescia no seio do seu ventre. Incompreensível, é certo, mas o coração dos homens tem mil e uma razões que se esquecem de ouvir a voz do coração.

Meses depois, um grupo de camponeses que passava junto ao muro do cemitério de Sobral de Monte Agraço ouviu uns gemidos que mais pareciam o choro de um bebé.

Como aquilo não era sítio para crianças, os homens resolveram entrar, achando que iam encontrar um petiz perdido dos pais. Mas mal cruzaram os portões de ferro, depararam-se com um cenário tenebroso… Junto à campa de Aurélia estava um bebé ainda envolto em fluidos e sangue, acabadinho de nascer. Os camponeses recuaram, amedrontados. Aurélia, já cadáver, dera à luz um filho! Jaziam lado a lado. Ela morta. Ele vivo. Rosadinho e de boa saúde.

Os camponeses bem podiam ter fugido dali a sete pés, mas por acaso não foi isso que aconteceu. Como conheciam bem o triste suplício de Aurélia, concluíram que aquilo era um milagre. Entenderam que Aurélia era santa e então carregaram os seus restos mortais para a igreja de Sobral de Monte Agraço, para que fossem consagrados ao culto, enquanto o menino foi criado com amor pelos avós arrependidos.

Depressa a história ganhou pernas e espalhou-se por muitos lugares. Durante os tempos que se seguiram, muita gente vinha até de aldeias distantes para rezar à santa, pedir-lhe ajuda, cumprir promessas e curar outras maleitas da alma, conta-se em jeito de lenda lá para aqueles lados.

Mas a história não se fica por aqui. Uns anos mais tarde, três patifes sem escrúpulos assaltaram a igreja e levaram o túmulo da santa, atando-o a uma carroça e carregando-o ao rebolão. Desdenhando da fé do povo, deixaram no adro da igreja um fardo de palha e uma gamela com água. Pois morreram todos pouco tempo depois! Um zurrava, outro ladrava e outro balia! Os restos mortais da santa voltaram ao seu lugar, de onde, reza a lenda bem conhecida na região, nunca mais ninguém se atreveu a tirá-los.
Sobral de Monte Agraço Aurélia questões sociais
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