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Correio da Manhã

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Vanessa Fidalgo

Um susto de férias

“- Não me digam que não gostam dos novos aposentos! - sibilou o gótico. Um relâmpago iluminou a sala, coberta de molduras de mortos.”

Vanessa Fidalgo 24 de Julho de 2016 às 00:30
Desde o primeiro dia em que o viu na esplanada da faculdade que não gostou dele nem um bocadinho. Era um tipo fininho e altivo, com um humor cínico, sempre vestido de preto, que passava o tempo todo com um cigarro ao canto da boca. Só falava de filmes de terror e dizia que já tinha vivido numa casa assombrada. ‘Que imbecil’, pensava sempre que o via.
No início, quase não lhe dirigia a palavra para não lhe dar confiança. Mas quando as férias chegaram e os amigos decidiram ir acampar, soube que ele também ia. Que seca. Tinha de levar o gótico na bagagem...
Montaram as tendas numa encosta escarpada junto ao mar e a poucos quilómetros de um festival. O sítio era espetacular. Até que numa noite a ventania varreu os declives e os relâmpagos iluminaram a noite com espalhafato. Encolheram-se dentro da tenda, com as toalhas de praia à volta dos ombros e os pés alagados em água. Não sabiam o que fazer, até que o gótico, secamente, anunciou: - Eu conheço uma casa abandonada aqui perto...
Não lhes apetecia ir para uma casa velha e bafienta, mas não parecia haver outra solução. Seguiram aos solavancos pela estrada esburacada, onde não se via vivalma. Lá fora, os pinheiros de cume aguçado vergavam-se açoitados pela chuva. "Se tivermos uma avaria, não há quem nos valha...", pensava contrafeita e apreensiva, até que finalmente chegaram.
Devia ter sido uma casa imponente noutros tempos, com uma escadaria imensa à entrada e varandas em arco. Mas lá dentro, as madeiras chiavam a cada passo e o vento zunia pelas frinchas. Os telemóveis não tinham rede. Palpitava-lhe um mau agoiro qualquer. Mal entraram, o Rafa torceu um pé numa trave de madeira solta. A Filipa estava com vertigens.
- Não me digam que não gostam dos novos aposentos! – sibilou o gótico gelidamente. Um relâmpago iluminou a sala, coberta de molduras de mortos.
- Eram da tua família? - provocou-o.
- Já vais descobrir…
Mas ela não queria saber. Estava farta daquele jogo estúpido e ia pôr-se ao fresco. Resoluta, avançou para a porta e rodou a maçaneta… que não lhe obedeceu. Sentiu um baque no peito e correu para a janela aberta, que se fechou com um estrondo à sua frente. Sentiu o sangue parar-lhe nas veias, o coração a correr. Na cara dos amigos estava estampado o terror. Então ele avançou altivo e estalando os dedos das mãos declarou: Onde pensam que vão? Agora é que as férias vão começar…
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