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Victor Bandarra

Já nem o 'Borda D'Água'...

Albertina, temente a Deus e aos astros, desceu à terra plenamente convencida de que o tempo e as coisas da Natureza deram repentinas e malfadadas piruetas logo a seguir ao Homem pisar a Lua.

Victor Bandarra 15 de Outubro de 2017 às 00:30

Albertina, temente a Deus e aos astros, desceu à terra plenamente convencida de que o tempo e as coisas da Natureza deram repentinas e malfadadas piruetas logo a seguir ao Homem pisar a Lua. Nos idos de 69, o marido Jacinto, ainda que desconfiado de certos avanços da Ciência, convenceu-se e convenceu a mulher de que americanos de carne e osso saltitaram mesmo pelos campos lunares. "Eles chegaram lá, mulher!" E ela, rezingona. "Mas para quê?! Pergunto eu!"

Jacinto sorria-se e zombava dos astros, de cada vez que Albertina lhe azucrinava os ouvidos com tiradas de mau agoiro. "Olha pra isto! Outubro e nem pinga de água! Isto é castigo..." Agricultor à antiga, Jacinto seguia à letra os prognósticos, provérbios, mezinhas e conselhos constantes do velho ‘Borda d´Agua’, almanaque de inspiração ribatejana publicado desde 1929. 

Cuidava que, em Outubro, era hora de preparar a horta para a sementeira de alface e cebola, colher os feijões e, pelo fim do mês, plantar morangueiros, alhos e cebolinhas. Ao entardecer, bebericando copitos de tinto, Jacinto refastelava-se sob o caramanchão, cogitando na eterna vindima de Setembro e remoendo planos para a venda do vinho já na adega.

Arreigado empirismo, Jacinto foi relendo outros almanaques que, no fundo, apontavam as mesmas direcções e chegavam às mesmas conclusões. Por exemplo, o ‘Seringador’, com grande saída por todo o Norte desde 1864. E regalava-se ainda com a vasta erudição, prática e esotérica, constante do bojudo ‘Lunário Perpétuo’, publicado pela primeira vez em 1672, em Valência. Almanaque que fala da Lua e dos astros, dos sonhos e das constelações, de Deus e dos diabos, dos feriados e dias santos de guarda, de tudo o que orienta as chuvas e os calores, as inclinações e os feitios dos homens.

Jacinto sempre aconselhou Joaquim, seu único filho, com ideia feita e refeita: "A Natureza tem sempre razão." E apontava as hortas, os campos e as florestas ancestrais. "As pessoas e as casas vão-se, a terra fica!" Quando os pais morreram, Joaquim herdou algumas casitas e várias pequenas propriedades. Caiu na tentação de vender as terras mas conteve-se.

Hoje, por lá estão ao abandono, perdidas pelos montes carecas e estorricados junto à aldeia beirã. Joaquim, reformado há uns meses, segue atentamente as notícias da seca e dos incêndios, dos furacões e das cheias, da desertificação do interior e das chusmas de turistas no litoral. Meditativo, tem recordado as derradeiras palavras do pai moribundo. "Meu filho! Isto está tudo mudado! Já nem no ‘Borda d´ Água’ se pode confiar!" Esgar irónico. "A tua mãe é que tinha razão! Até já fomos à Lua, mas estragámos isto tudo!"

Victor Bandarra Ligação Direta
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