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Victor Bandarra

A primeira pedra

Yasmine, Noura, Myriam, Mina e Mehdi foram mortos pela mãe.

Victor Bandarra 21 de Fevereiro de 2016 às 00:30
Yasmine, Noura, Myriam, Mina e Mehdi foram mortos pela mãe, Geneviève, ao início da tarde, após as crianças terem chegado da escola. Os corpos são encontrados deitados nas suas camas. O pai está ausente. A mãe usou uma arma branca. Tenta suicidar-se logo a seguir, mas sobrevive. Os vizinhos reagem. "É incompreensível. Era uma pessoa tão gentil!" O presidente do município de Nivelles, pequena cidade belga onde tudo aconteceu em 2007, manifesta-se atónito. "Era uma mãe muito ligada aos filhos! É realmente incompreensível!"

Há uns 2500 anos, Sófocles escreveu a mais perfeita tragédia grega - o ‘Édipo Rei’. Laio, alvo de antiga maldição, casa com Jocasta, que fica grávida de Édipo. O oráculo de Apolo, em Delfos, confirma a maldição: o filho Édipo há-de matar o seu pai e desposar a sua mãe. É o drama de Édipo, mandado matar pelo pai logo após o seu nascimento. Isso não acontece, graças a um pastor que o salva. Mais tarde, Édipo deixa a casa onde foi acolhido e criado. Numa encruzilhada, mata um estranho.

É Laio, seu pai. Depois, Édipo acaba por desposar Jocasta, sua mãe. Têm quatro filhos. Nem Édipo nem Jocasta conhecem a verdadeira história dos seus sangues. A ameaça do oráculo cumpre-se. Quando tudo se vem a conhecer, Jocasta suicida-se. Édipo fura os olhos. Finalmente, vestido com uma mortalha, há-de acabar por morrer, tragado pela terra que o recebe.

Freud vem a ligar a tragédia de Édipo a um famoso complexo de ordem neurótica. Complexo que pode levar à psicose, ao incesto, ao parricídio e ao filicídio. Freud é logo considerado um génio, ainda que, nos tempos que correm, muitos psiquiatras prefiram ignorar e até menosprezar o drama de Édipo. Depois de Sófocles, Cristo evita que apedrejem Madalena, a mulher adúltera. "Quem nunca errou que atire a primeira pedra!" Mas é também o Cristo que diz: "Ai daquele que escandalizar uma criança! Mais vale amarrar uma pedra ao pescoço e lançar-se ao fundo do mar!"

Esta semana, em Caxias, uma mulher entra mar adentro com dois filhos pequenos. As crianças morrem, a mulher sobrevive. Presume-se um drama familiar, é seguramente uma tragédia social. Ninguém sabe, ninguém pode saber, o que vai na cabeça de uma mulher que se prepara para destruir o sangue do seu sangue, os próprios filhos. Segundo as leis e a Justiça, merece castigo. Mas poucos, talvez ninguém, a podem julgar.
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