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Victor Bandarra

4ª classe com distinção

“Com suor e mérito, José fez fortuna. É dono de várias fábricas e, este ano, contratou António como jurista”

Victor Bandarra 20 de Dezembro de 2015 às 01:36
ntónio e José fizeram o exame da 4ª classe no mesmo dia de 1968. Os dois arranjadinhos, de gravata e sapatos bem engraxados. Haviam crescido juntos. Os pais de António, o menino da Quinta Grande, deram ao filho a facilidade de se dar com José, um dos rebentos do caseiro. Gente de bem e dada a liberalismos desde os tempos de D. Pedro.

Por razões de religião e moral, tinham ambos 6 irmãos em escadinha. Brincavam juntos, ao berlinde e ao pião, no pátio ensaibrado à entrada do solar da quinta. Ainda assim, os pais de António sempre proibiram o herdeiro de entrar na casinha dos pais de José, lá bem no fundo da quinta. Aos porquês do rapaz, respondiam com explicação lógica. "A casa deles é muito húmida para a tua asma..." Uma professora da vila dava a António explicações de aritmética, português e até francês. José também se agarrava aos livros, tinha jeito para a matemática e sobretudo para línguas, mas o pai pouco o conseguia ajudar – mal sabia escrevinhar o seu nome.

Nesse dia do exame, nervosos, os dois amigos fizeram o que puderam. António passou com distinção, José passou. António seguiu o liceu e depois a Universidade. José foi trabalhar nos pomares e na lavoura da quinta. António formou-se em Direito, a custo, muito por culpa do pai que pugnava por ver o filho doutor em leis. José, mal se livrou da autoridade paterna, arrancou para Lisboa, onde começou por trabalhar numa fábrica em Sacavém. Passou anos sem ver o amigo António, cismando por nunca ter feito o 7º ano dos liceus e labutando que nem moiro. O meu amigo Zé dos Pneus conheceu José quando os dois entraram num negócio de câmaras de ar para bicicletas. "Um tipo inteligente e genial para o negócio!"

Os exames da 4ª classe são, ontem como hoje, também um método de exclusão social. Serviram e servem para dividir, logo aos 10 anos, os que podem e devem seguir os estudos e os que, por suposta ordem natural das coisas, devem dedicar-se aos trabalhos manuais ou técnicos. Especialistas de bom senso e sentido social bateram palmas quando o Parlamento aprovou a extinção do famigerado exame do 4º ano recriado por Crato. Porque, segundo a OCDE, os exames aos 10 anos devem ter apenas uma função de diagnóstico e nunca cortar logo as pernas aos mais desafortunados.

Com suor e mérito, José fez fortuna. É dono de várias fábricas e, este ano, contratou António como jurista. Fez-lhe um favor, em memória dos tempos de meninice. Amigos com dantes, José acabou a confessar a António. "Sabes que mais!? O meu sonho sempre foi a advocacia!" António suspirou fundo. "E depois vias-te à rasca para sustentar a filharada..."
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