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Victor Bandarra

A lista

“Confundem-se pedófilos com abusadores sexuais de menores, não é a mesma coisa”

Victor Bandarra 8 de Maio de 2015 às 13:00

Um homem largo, louro, olhos azuis, barriga proeminente, já entradote. Na mesa do canto de discreto restaurante, olha embevecido para um rapazinho dos seus 10/11 anos que rodopia a palhinha no copo de coca-cola. É um miúdo trigueiro, magrito, de cabelos preto-azeviche. São quase 11 da noite, há mais duas mesas ocupadas por casais do bairro, que olham de soslaio para o improvável par ao canto. O empregado nota o sotaque estrangeiro do barrigudo, com os érres à moda de Setúbal. Talvez francês, ou belga, ou suíço. O rapazito, pelo linguajar, é obviamente lisboeta. Falam baixo, em português. Por alturas da sobremesa, o homem deixa escorregar a mão por sobre a do rapaz e chega a afagar-lhe a cara. Conta paga e já de saída, o louro, com gestos protectores, insiste em colocar a mão larga sobre os ombros do morenito. Perdem-se os dois na noite. No restaurante, uma das clientes indigna-se. "É uma pouca-vergonha! Vêm para cá desviar as crianças..." O empregado troveja. "Não se preocupe! Já tratei dele. Nem sabe o que o espera!"

A cena passou-se há alguns anos, num bairro classe média--alta de Lisboa. Por estes dias, discute-se a lista de pedófilos ou abusadores condenados que o governo quer que fique à mão de semear de pais com filhos menores de 16 anos. Há graves distúrbios semânticos (e outros) na proposta de lei. Por exemplo, confundem-se pedófilos com abusadores sexuais de menores. Não é a mesma coisa. O pedófilo sente atracção sexual por crianças (sobretudo meninos) impúberes, ou seja, que não atingiram a puberdade. Podem ter 7, ou 8, ou 10, ou 13 anos – não interessa a idade, têm é de ser impúberes. É obviamente uma doença, que tem de ser tratada e prevenida. Até porque só alguns pedófilos abusam mesmo das crianças mais à mão – têm de ser punidos. Muitos pais a quem tocarem nos filhos hão-de querer resolver tudo com as próprias mãos, como compreendia o meu amigo Zé dos Pneus. Uma lista promove a justiça vingadora. E provoca confusões entre justiceirismo e justiça, acusação e prevenção, condenação e linchamento.

Naquela noite, o empregado justiceiro telefonou à polícia e contou a história. O barrigudo foi apanhado por três agentes quando ia a entrar, com o miúdo, num apartamento das redondezas. Trataram-no logo ali à lambada, com sanha de justiceiros. O rapazito gritava, em pânico. Acaso já houvesse uma lista de pedófilos, este louro não constaria dela. Até porque era, simplesmente, um pai francês, ternurento e cheio de saudades, de visita ao filho que vive em Lisboa com a sua ex-mulher portuguesa.

Victor Bandarra crónica ligação directa a lista
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