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Victor Bandarra

Arroz de moelas & raspadinha

Seco de carnes, desempenado, ostenta um fino bigodinho à brasileira.

Victor Bandarra 22 de Maio de 2016 às 00:30

Saco de plástico debaixo do braço, o velho vai entrando no supermercado do centro comercial lisboeta. É logo assediado pela voz maviosa de uma menina, também ela com um molho de sacos de plástico nas mãos. "É para ajudar os animais!" O homem faz menção de aceitar, mas hesita. "Para ajudar quem?!" A menina, bem educada, explica que "é para ajudar cães e gatos maltratados e abandonados". Os tempos andam maus para todos, até para os animais de estimação. O velho vai a jogo. "Ajudar com quê?" A menina, paciente, explica que há comida enlatada muito em conta. O velho aceita o saco e avança pelos corredores entre prateleiras. Pouco mais escolhe que duas embalagens de moelas, uns bifinhos de frango, um pacote de arroz, outro de esparguete. Detém-se ainda na secção de comida para animais. Cofia o bigode, semicerra os olhos, abre e fecha a boca. Finalmente, sorriso irónico, volta à conversa. "Olhe menina! E os seus cãezinhos comem de tudo?" A menina baralha-se, não percebe bem a pergunta. "Acho que sim!" O homem sorri e abala a caminho do elevador. Uma meia hora depois, regressa com o saco de plástico cheio e vai directo à rapariga amiga dos animais. "Aqui tem menina! Um petisco para os seus bichinhos!" A jovem encolhe-se. Segue-se verdadeira cena de cinema, meio burlesca, meio neo-realista. "Mas o que é isso?!" Voz bem alta, o malandro do velho explica-se melhor. "Olhe! É um resto de arroz de moelas que me sobrou do almoço! Está bem bom! Vão- -se lamber todos!" A menina, nervosa, está prestes a perder o verniz. "Mas o qué que se vai fazer com isto?!" Ao lado, uma mulher da associação protectora, sabida, corre em ajuda da miúda. "Muito obrigada, meu amigo! Obrigada pelo seu gesto! Agradecemos muito!" O velho, embalado, aproveita para executar e desenvolver a cena preparada. "Olhe minha senhora! Não sei se já reparou, mas o quilo de moelas está mais barato que uma lata de ossos com molho de frango para os cãezinhos!" À volta, há quem sorria, de frente ou à socapa.

(O Papa Francisco, ao jeito neo- -realista, colocou há dias vários dedos na ferida. "Quantas vezes vemos pessoas que cuidam de gatos e cães, e depois deixam sem ajuda o vizinho que passa fome?!" Francisco aproveitou para dissertar sobre os sentimentos dos que não entendem a diferença entre a grandeza da piedade e a hipocrisia da comiseração).

Mal o velho vira costas, a amiga dos animais, prosaica, corre a deitar no lixo o arroz de moelas. Quanto ao velho autor da cena, dirige-se ao quiosque dos jornais e decide apostar 2 euros numa "raspadinha". Como é normal e provável em cenas neo-realistas, não lhe sai um tostão. Mas, pela segunda vez em menos de uma hora, faz o gosto ao dedo.

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