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Victor Bandarra

Cavaco e a circunstância

A frase-proclamação colou-se-lhe à pele: “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”.

Victor Bandarra 13 de Março de 2016 às 00:30

Face ao estilo empinado e teimoso com que fica para a História, muitos se encarregaram de que a famosa máxima lhe assentasse que nem luva. Cavaco Silva garantiu sempre não se lembrar de ter botado semelhante boutade, ideia arrogante e sem nada de espirituoso. É simples falta de memória, o que até se lhe desculpa. Mas é hoje oportuno sublinhar que o principal autor e actor do Cavaquismo proferiu mesmo a dita frase.

Aconteceu no Hotel dos Templários, em Tomar, durante a campanha eleitoral de 1985, pelos finais de Setembro. Eu, repórter da agência NP, estava lá, atento, com estes ouvidos que a terra há-de comer. Ao longo de dias, Cavaco & Companhia percorrem quase todos os concelhos do país, num esforço físico tremendo para o professor de Finanças que acabara de ganhar a liderança do PSD no congresso da Figueira da Foz. Ao fazer jus à sua ideia de "mais acção e menos retórica", o candidato tenso e tímido opta pelos mínimos contactos com os jornalistas que o seguem. Em Tomar, a pedido de todos, o seu assessor Fernando Lima consegue convencer o professor a dar umas palavrinhas aos repórteres, sem gravação de som, numa sala do hotel. Os "trutas" dos jornais engatilham perguntas e Cavaco lá se vai desenrascando, manhoso e desconfiado, ainda professor e já a caminho da grande política. Portugal acabara de assinar, em Junho, pelo punho de Mário Soares, o Tratado de Adesão à CEE. Cavaco tece então considerações sobre determinados aspectos da austeridade imposta pelo FMI e a situação financeira nacional e internacional. Os jornalistas de antanho não eram gente de se ficar e levantam dúvidas. E Cavaco, convicto, acaba a insistir que, "sobre isso... nunca me engano e raramente tenho dúvidas!" Cavaco dixit e a citação surge a meio de uma peça da Agência NP enviada para as rádios e jornais. É justo insistir que o "sobre isso" faz toda a diferença, pelo que é compreensível entender a falta de memória de Cavaco. O então candidato a S. Bento disse a frase num determinado contexto, sobre determinada matéria. Em Tomar, não quis proclamar uma opinião total e universal sobre a sua teimosia e infalibilidade. Mas os media têm destas coisas. Nos dias seguintes, as palavras de Cavaco são publicadas nas secções de "frases de campanha" de vários jornais, já sem o "sobre isso". Cavaco ganha as eleições e torna-se o 113º primeiro-ministro de Portugal. O verdadeiro problema é que Cavaco, nos 30 anos seguintes, levou a ideia a peito: nunca teve dúvidas, por isso se enganou tanto.
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