Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
3
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Victor Bandarra

Direito à preguiça, sempre!

No jipe, soltam-se comentários: ‘Este pessoal daqui é lento e preguiçoso comó diabo’.

Victor Bandarra 2 de Julho de 2017 às 00:30
Pela beirinha da picada poeirenta, a família avança em passo lento, cadenciado, lânguido. O velho à frente, pontuando a marcha com um bordão. Logo atrás, a mulher mais velha, com imensa trouxa à cabeça. Depois, outras mulheres, outros rapazes e raparigas, todos carregados com os teres e haveres. É uma família camponesa moçambicana, do povo makua, que se desloca no interior de Nampula. Mal veem o jipe ao fundo da recta, todos param. Ali ficam, especados, braços caídos, uns bons minutos, até que o veículo com portugueses lhes faz uma tangente calculada. O mais-velho acena, lentamente, com as mãos ao alto. No jipe, soltam-se os comentários.

"Este pessoal daqui é lento e preguiçoso comó diabo!" Começa a discussão. Um dos forasteiros, alentejano pois com certeza, acorda da modorra do meio-dia. "Nã senhor! Vocês sabem lá o que o calor faz às pessoas!" E ri-se.

"Haviam de ver o que é que é quentura na Amareleja!" E mais. "Ná apetece fazer nada!" E logo outro, entre o gozão e o sexista. "O trabalho dignifica o homem... e sobretudo a mulher!" Pretexto para uma boa discussão sobre a preguiça e o trabalho, à volta de umas cervejolas, mais à frente, num tasco à beira da estrada.
O direito ao trabalho foi mote da luta das organizações operárias nos séculos XIX, XX, e ainda hoje. Porém, coisas do capitalismo, o princípio de que "o trabalho dignifica o homem" tem sido muito mais utilizado por quem trabalha pouco e lucra muito com o trabalho alheio. No campo de Auschwitz, os nazis foram subtis. Lá está, à entrada - "Arbeit macht frei" (o trabalho liberta). Ciente de que, mais do que reivindicar o direito ao trabalho, é preciso lutar pelo direito ao descanso, o francês Paul Lafargue lançou um panfleto político que deu brado - ‘O Direito à Preguiça’. Foi publicado pelo jornal socialista ‘L´Égalité’ em... 1880. Lafarque disparava contra as visões conservadoras, liberais e até marxistas do trabalho. Na altura, a jornada de trabalho chegava a ser de 17 horas.

"O trabalho desenfreado é o mais terrível flagelo que já atacou a Humanidade". Lafargue concluía que "o próprio Deus (...) deu o exemplo de preguiça ideal: depois de 6 dias de trabalho, repousou para a eternidade!"
Em Moçambique, em luta contra a moleza, os citadinos do jipe vão parando aqui e ali, petiscando e bebericando.

Sempre à volta de piadas sobre a suposta preguiça dos africanos, misturadas com toscos elogios ao direito a descanso. Ao fim do dia, percorridos mais 50 quilómetros, o grupo chega ao restaurante do costume, já na cidade de Nampula. Mal se amesendam sob o alpendre, há gritos de surpresa. Na cadência de sempre, marcada pelo bordão, a mesma família makua passa em frente do grupo excursionista. O mais-velho, sem parar, saúda de novo com as mãos levantadas.

Caminham, quase sem paragens, desde madrugada. No espírito de todos, a lição da lebre e da tartaruga. Respeitoso, o alentejano brincalhão atira-lhes sentido elogio.

"Estes camaradas ainda são mais rápidos do que os alentejanos..."
Victor Bandarra opinião
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)