Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
2
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Victor Bandarra

Há gadjos para tudo

Em vida, Velho Flores foi um “rei dos ciganos”, assim cognominado pelos “gadjos”, os não-ciganos.

Victor Bandarra 30 de Julho de 2017 às 00:30

Em vida, Velho Flores foi um "rei dos ciganos", assim cognominado pelos "gadjos", os não-ciganos. Ele era (apenas) um patriarca de família, a quem era devido respeito e deferência, além de medo, em situações extremas. Sábio, de longas barbas, comerciante de sapatos, amante de música, de dança e de viagens, ainda que a sua família há muito tivesse abandonado o nomadismo. Ciente de que nunca os seus irmãos de raça, nem ele, conseguiriam cumprir horários das oito-às-cinco, Velho Flores fomentou a arte-de-bem-comerciar-em-toda-a-feira, e assim alimentou o clã. Velho Flores desconfiava tanto dos "gadjos" como os "gadjos" desconfiavam dele. Mas a ideia de que palavra de cigano não vale um tostão era contrariada por muitos "gadjos": palavra de Velho Flores era palavra dada. ("Gadjo" é o termo cigano para designar os estranhos; nos tempos antigos, "gadjó" era simplesmente a pessoa sedentária, o contrário do nómada). Velho Flores conquistou respeito na comunidade dos "gadjos" da Grande Lisboa. Fechava os olhos a pecados e pecadilhos da sua gente, só não alinhava no tráfico de droga. Autarcas e polícias, comerciantes e proprietários, todos lhe pediam conselho e ajuda - ora para não serem enganados, ora para recuperarem alguns haveres surripiados pelos membros do clã. Velho Flores repetia à exaustão argumentos contra a mais antiga ideia feita sobre os ciganos. "O cigano detesta zaragatas! Só arranja confusão quando se metem com a família ou com as crianças!" E cofiava a barba. "O pior é que andamos sempre à bulha entre nós..."

O candidato a autarca André Ventura, corajoso no senso comum, meteu-se com os ciganos em declarações, infelizes e xenófobas, sobre os subsídios à comunidade. Disse em voz alta o que muitos pensam e dizem à boca pequena. Até Velho Flores, à sua maneira, lhe daria razão. "O cigano é tramado: aproveita--se logo... " Há quem desconfie que Ventura já ganhou votos. Na verdade, o conhecimento do português comum sobre os seus compatriotas ciganos só é comparável ao profundo desconhecimento que há sobre a História daquele Povo. A origem da cultura cigana perde--se nos confins do Rajastão, no Norte da Índia. Vários grupos vieram para a Europa há muitos séculos. Para se distinguirem, usam os nomes dos vários clãs - "rom", "manus", "calé", "sinti". "Rom" e "manus", de origem indiana, significam "homens livres". Sempre os ciganos tentaram fugir a guerras e confusões e, talvez por isso, sempre foram escorraçados e perseguidos. Velho Flores, mais por intuição, sabia de tudo isto. E sabia que muitos da sua gente não eram propriamente flores-de-           -cheiro. Já velhinho, era consultado amiúde pelos "gadjos". Metiam-lhe "cunhas" para isto e para aquilo. Pouco antes de morrer, acabou por confessar. "A droga está a matar os ciganos!" Mas como, Velho Flores? "Começaram no tráfico e acabaram agarrados!" Andava triste, muito triste. "Já não respeitam ninguém! Nem pai, nem mãe, nem rei…"

antiga ortografia

Victor Bandarra Ligação direta
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)