Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
6
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Victor Bandarra

Longe de Lampedusa

Prefere falar de Tombuctu, a histórica cidade que foi importante centro comercial.

Victor Bandarra 26 de Abril de 2015 às 00:30

Keita vende tudo e tudo compra no bairro luandense do Rocha Pinto. É conhecido como Keita "Xambeta", porque é coxo. Ostenta cicatrizes por todos os cantos, da cara deformada às pernas arqueadas. Pelo sotaque, há quem suponha que veio do Congo, como milhares de outros habitantes da metrópole angolana. Na verdade, Keita nasceu bem mais a norte, no Mali islâmico, e há anos que assentou arraiais em Luanda. Keita, ainda minoritário, assume com orgulho a sua cristandade. Em Luanda, entrosou-se com meninas e senhoras locais. Hoje, Keita tem vaidade na vasta prole, meio angolana, meio maliana. Uns são cantoneiros, outros viraram "candongueiros" no ramo dos transportes. Das filhas, umas são zungueiras (vendedoras ambulantes), enquanto a mais velha exerce a função de "kinguila" ("quem está à espera", em kimbundo) e gere com olho vivo e mão de ferro, pelas esquinas, o negócio da compra e venda de divisas estrangeiras.

Keita chegou a alimentar o sonho de emigrar para França, onde vive um dos irmãos. E porque não? Keita não gosta de falar no mito europeu. "Meus filhos são angolanos, agorra sou angolano! E prronto!" À volta de umas cervejolas e de uns mufetes de peixe-galo, o maliano fecha os olhos quando lhe falam em Lampedusa e nos milhares de náufragos que fazem do Mediterrâneo o maior cemitério europeu desde a última Guerra Mundial. Prefere falar do deserto maliano e de Tombuctu, a histórica cidade que foi importante centro comercial e religioso do Império do Mali. Keita sabe que metade dos seus compatriotas vive com um dólar por dia. Meio pesaroso, ironiza com o facto de passarem diariamente pelas mãos da filha "kinguila" muitas notas de dólar americano.


Ao fim da tarde, pela TV, o balanço do mais recente naufrágio no mar, entre a Líbia e Lampedusa: quase 800 mortos; homens, mulheres e muitas crianças. Todos do Sul, todos mais escuros, todos vidrados na miragem do Norte. Angolanos à volta do ecrã suspendem o copo de cerveja, cumprem silêncio de curiosidade e enviesam a conversa para coisas de futebol e garinas. Tininho, recente amigo angolano de Keita, lança piada ingénua. "Mano Keita! Se tivesses emigrado para a Europa morrias... Tu não sabes nadar!" Keita arregala os olhos, ameaçador.

"Agora já vem na televisão, não é?!"  Após longos segundos de silêncio, Keita aponta as cicatrizes no braço. Voz gutural, Keita explica que, por muitas saudades que tenha do irmão, nunca trocará Luanda por Paris. "Meu pai, minha mãe e minha irmã piquininina não sabiam nadar! Morreram afogadas no mar!" Keita levanta o copo aos céus. "Consegui chegar a Luanda! Graças a Deus, nunca cheguei a ver Lampedusa..."

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)