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Victor Bandarra

Mistérios das Finanças

"Saudosistas desmemoriados apontam a máxima pelintra de Salazar".

Victor Bandarra 21 de Agosto de 2016 às 01:45
Para mal dos pecados nacionais, desde o século XIX que os portugueses têm sido condenados a recordar com nitidez, e a sentir no bolso, os nomes e as obras dos ministros das Finanças. Também para mal dos pecados indígenas, poucos conseguem citar, assim à primeira, o nome de algum ministro da Justiça, da Saúde, da Cultura ou até da Economia dos últimos 100 anos.

Porque a memória humana é selectiva e poucas vezes se dá ao luxo de recordar quem poucas alegrias lhe concedeu. Quanto a tristezas, é da natureza do Povo guardá-las e usá-las como sinetas de alarme.

É pois difícil entender a inevitabilidade de muitos dos ministros que puseram a mão na massa terem passado à posteridade, com direito a busto, estátua, nome de rua, até de praça. Quem sabe se apenas porque vários aproveitaram o cargo (Salazar à cabeça) para pular à cátedra do Governo. Desde 1830, afincaram na pasta das Finanças (já foi da Fazenda) 175 figuras do nosso desencanto, a começar por um tal Mouzinho de Albuquerque.

Primeiro, na monarquia constitucional, brotaram nomes pomposos – Duque de Palmela, Duque de Saldanha ou Visconde de Sá da Bandeira, que apostaram nas habituais geringonças financeiras. Também por lá passaram ilustres ‘nomes de rua’ como Fontes Pereira de Melo e Passos Manuel, depois José Relvas e Sidónio Pais, mais Pimenta de Castro e Afonso Costa. Sempre muita Finança, grossa Política e pouca Economia. Até Guterres há-de ser ingloriamente recordado pela sua tirada numérico-financeira sobre o PIB. De Sócrates a Barroso, que acreditaram nuns quantos astrólogos financeiros, o busílis foi sempre o fazer contas.

Saudosistas desmemoriados apontam a máxima pelintra de Salazar: poupadinhos, pobrezinhos e limpinhos. Na senda da inevitabilidade lusitana, acabou por aparecer depois Cavaco, que, homem de fartas contas, se alcandorou a primeiro-ministro e Presidente. E jura ele que há-de vir o primeiro que o ensine... a fazer contas. Há-de pois ter direito a nome de praça e o que mais aprouver à memória dos futuros mandantes.

Chegados a Centeno, passado brilhante e futuro incerto, ninguém deixa o homem em paz. É o défice, são os bancos, é a economia e os ziguezagues do crescimento. E ele, sorriso tímido, perdido em explicações, sob a pata de Schauble. E, como sempre, ninguém se lembra do ministro da Economia, também tímido, um tal Manuel Caldeira Cabral. Mais se lembra a rebitesa M. Luís Albuquerque, que partiu e pouco repartiu. O que vale é que não consta que Centeno queira vir a ser primeiro-ministro, muito menos que Schauble tenha hipóteses de trepar a chanceler alemão.
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