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Victor Bandarra

O lodo e as estrelas

O livro foi proibido pelo regime. Basta entranhar um dos pequenos contos/poemas para se perceber porquê

Victor Bandarra 10 de Setembro de 2017 às 00:30

Segura o livro com mãos trémulas. No banco do jardim lisboeta, encolhido, o velho soletra meneando os lábios. Vai fungando e folheando cada página, com toda a atenção. Quando soergue a cabeça, percebem-se-lhe lágrimas teimosas pela cara abaixo. Puxa de um lenço para secar os olhos vermelhuscos. Com um suspiro, faz dobra numa página e deixa tombar o livro sobre o banco. O título: ‘O Lodo e as Estrelas’ (Edição Âncora). Logo abaixo: ‘L Lhodo I Las Streillas’. Autor: Telmo Ferraz, traduzido para mirandês por Fracisco Niebro. Nenhum dos atentos circundantes dá mostras de reconhecer o livro ou os autores. E poucos terão lido, em letra de forma, palavras em mirandês, uma das duas línguas oficiais de Portugal. (Fracisco Niebro é o pseudónimo do malogrado Amadeu Ferreira, o grande recuperador da língua mirandesa).

‘O Lodo e as Estrelas’ foi escrito nos idos de 50 pelo Padre Telmo Ferraz, aquando da construção das barragens do Alto Douro - Picote e Miranda. Telmo Ferraz nasceu em Bruçó, Mogadouro. Segundo Amadeu Ferreira, o livro "é um testemunho extraordinário, que fala da língua mirandesa, da maneira como os barragistas faziam troça dos palhantros e da manifestação que os mirandeses, roubados no que era seu, fizeram em Vila Chã, a gritar: num queremos acá la barraige". O livro (1ª edição em 1960) foi proibido pelo regime. Basta entranhar um dos pequenos contos/poemas para se perceber porquê. O então jovem padre, em dura e contundente linguagem, conta as histórias dos desgraçados trabalhadores das barragens, gente que morria de fome e de silicose. Até o mais duro dos transmontanos há-de sentir um nó na garganta ao ler os pequenos textos. Por exemplo, ‘O Braço Bambo’ (1956). Assim: "Hoje, apertei o braço ao Araújo, para o amparar; senti-o duro e bambo. Todo o dia pensei no seu braço - bambo e duro. Mesmo agora me parece vê-lo, suspenso no ar, por cima do estaleiro e do bairro, duro e bambo. A quem aponta? A quem acusa? Tenho medo. Naquele dia, quando estoirarem foguetes e houver bênção, discursos, banquete... o braço bambo e duro apontará. A quem aponta? A quem acusa? Tenho medo. Acusa a todos". Por estas e por outras, o padre Ferraz é despachado para Cambambe, Angola, onde se começava a construir a barragem. Cá e lá, sempre às voltas com barragens e com os deserdados da vida. Funda então a Casa do Gaiato de Malanje. Agora, aos 92 anos, ignorado por uns, nunca esquecido por muitos, Padre Ferraz anda cá e lá, entre Angola e Trás-os-Montes. Esta semana, no jardim, os mirones escutam um rapazito que grita do baloiço em frente. "Ó vô! Posso brincar mais um bocadinho?" O velho acede, com carregado sotaque transmontano. E, tremelicante, volta a abrir ‘O Lodo e as Estrelas’. Provavelmente, embrenhado em duras e perturbadoras memórias.

antiga ortografia

Mirandês O Lodo e as Estrelas Amadeu Ferreira
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