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Victor Bandarra

Por boa-fé ou fezada

Cereja no topo: promete compensar Pôncio com 15% do bolo.

Victor Bandarra 28 de Setembro de 2014 às 00:30

Numa bela noite de Abril, Pôncio recebe e-mail com apelo dramático de uma presumível jovem africana, Jessica Simon de sua alegada graça. Pôncio, viúvo na casa dos 70 anos, beirão rijo que andou pelas Áfricas, é homem sensível e senhor de razoável pé-de-meia. Em português abrasileirado, transposto do inglês por medíocre tradutor automático, Jessica começa por um "olá querido" e avança com história do arco--da-velha. "Sou do Sudão, na África Oriental, 5,11 pés de altura, luz de pele. Sou única filha do Dr. Simon Julius Sambo, que morreu como resultado da guerra no meu país." O fio desenrola-se ao longo dos dias. O Dr. Sambo era proprietário da Sambo Minerais Lda, revela Jessica. "Ele foi assassinado ao lado com minha mãe, em sangue frio, uma cruel manhã..." E-mail puxa e-mail, e Pôncio, fraco em geografia, vem a saber que a pobre moça vive agora no "vizinho Dakar, Senegal". Envia duas fotos – é crioula de sorriso triste, perna generosa em pose num qualquer jardim. Finalmente, o engodo: o pai de abençoada memória deixou-lhe depositados 5,8 milhões de dólares num banco escocês, o Royal Bank of Scotland. Jessica pede ajuda a Pôncio, vive praticamente na miséria em casa de caridoso missionário de Dakar. Quer passar procuração a Pôncio para que trate de recuperar o dinheiro do Dr. Sambo seu pai. Cereja no topo: promete compensar Pôncio com 15% do bolo. Seguem-se calorosas mensagens em crescendo. Pôncio jura que tem pena da mocinha, quer ajudá-la. Às tantas, já recebe e-mails em nome do Royal Bank of Scotland (que existe de facto), assinados pelo "Director de Operações Exteriores", um tal Philip Hamton. Para despesas processuais, bastam 700 e tal dólares. Pôncio adora quando Jessica o trata por "meu lindo" e lhe promete amor, sociedade e futuros risonhos na Europa. Homem de boas acções, Pôncio remete NIB e NIF. Em Maio, acaba por fazer deslizar os euros para uma conta assim-assim, supostamente do banco com nome real. Jessica responde com um "haja Deus, seu lindo". O meu amigo Zé dos Pneus, vivido e vivaço, conhece marmanjos que já foram na conversa e na cantiga de Jessicas e companhias. Uns apenas na conversa, um ou outro na cantiga. Todos por boa-fé ou... fezada. A rede burlona é vasta, actua pela Net, consta que tem origem na Nigéria, com ramificações de polvo. Lança o isco através de milhares de e-mails. É a lei das probabilidades: se apenas 1% dos seduzidos for na conversa, já falamos de milhões de euros. Jessica preparava segunda dentada quando foi traída pelo tradutor automático inglês-português. Em novo e-mail do director do Royal Bank, Philip Hamton já assinava Philip Presuntinho, tradução livre derivada do "ham" (presunto). Só então Pôncio decidiu lavar as mãos da triste história da pobre Jessica.

Jessica Simon Pôncio
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