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Victor Bandarra

Porquê e para quê?

Após 38 anos de profissão, dois filhos mais pequenos (nove e cinco anos) obrigam-me todos os dias a repensar o Jornalismo que se tem vindo a fazer em Portugal e no Mundo.

Victor Bandarra 15 de Janeiro de 2017 às 00:30

Alertam camaradas de ofício, bem intencionados, que o Jornalismo já não é, nem pode ser, o que era. Nesta ‘aldeia global’, da net e da velocidade, os jornalistas são obrigados a ser, as mais das vezes, técnicos de comunicação, simples recolectores/retransmissores de informação seleccionada por outros.

Houve um tempo em que o bom jornalismo (notícia, reportagem, entrevista...) pugnava pela resposta a seis perguntas básicas: QUEM, ONDE, QUANDO, COMO, PORQUÊ E PARA QUÊ? Hoje, lêem-se, vêem-se e escutam-se apenas respostas às primeiras quatro perguntas (por vezes, esquece-se o QUANDO, para não parecer notícia requentada...). Mas as crianças nunca desistem de nos confrontar com as duas mais difíceis questões da Vida e do Jornalismo: PORQUÊ E PARA QUÊ? Duas interrogações que muitos profissionais deixaram de fazer - aos outros e a si próprios. Uns por necessidade de sobrevivência física e mental, outros por falta de engenho e arte, alguns por refinada trafulhice.

Enredados em intelectualismos, talvez legítimos, há quem aponte o chamado ‘jornalismo de investigação’ como a disciplina fina-flor da profissão. Depois, designam-se os jornalistas como ‘desportivos’, ‘económicos’, ‘políticos’. Apontam-se ainda os jornalismos ‘de referência’, ‘popular’, ‘tablóide’ ou ‘cor-de-rosa’. Uma baralhação arrogante! Um jornalista deve ser, primeiro que tudo, simplesmente jornalista - com todo o peso ético, deontológico, técnico, emocional e artístico que a profissão implica. E toda a notícia, reportagem ou entrevista é, ou pode ser, ‘jornalismo de investigação’ - tenha trinta ou dois minutos, uma página ou duas linhas.

Não é fácil. Um terço dos jornalistas com Carteira Profissional ganha à volta de 700 euros por mês. Barriga vazia nunca foi boa conselheira. Por isso, um dos baluartes da profissão deve ser o Princípio da Não-Necessidade, e por ele há que lutar. Até porque, quanto mais se baixam as calças, mais se vê o rabo...

Hoje, há patrões e assalariados que insistem no Jornalismo atabalhoado, tortuoso ou rococó, tantas vezes contraproducente ao próprio esquema de lucro.

Mas as crianças, senhores! só não perdoam a mentira. Por elas, pela perenidade futura do Jornalismo, deve o Congresso dos Jornalistas dignar-se repensar e discutir as interrogações primordiais. Porque há sempre alguém que resiste, é fundamental que os jornalistas voltem a tentar responder diariamente, em nome da LIBERDADE, às mais nobres questões do quotidiano: PORQUÊ e PARA QUÊ?

Antiga Ortografia

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