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Victor Bandarra

Zé dos Pneus (1948-2015)

O Zé dos Pneus animou-me a existência e espicaçou-me a inspiração.

Victor Bandarra 12 de Abril de 2015 às 00:30

Morreu o meu amigo Zé dos Pneus. Os amigos, assim de chofre, não conseguiram cumprir-lhe uma das suas últimas vontades: montar uma roulotte de bifanas e sandes de couratos durante o velório, à porta da igreja de Linda-a-Velha.

Na realidade, o meu amigo Zé dos Pneus chamava-se... Luís. Nome de baptismo: Luís Henrique. Para amigos e camaradas de armas era simplesmente o Hica. O seu benfiquismo e admiração pelo actual Presidente do Glorioso levaram-no a pedir-me para não colocar o Luís junto aos Pneus. "Para não haver confusões com o outro Luís! Cada um com o seu pneu..." E ria-se, o pintas de Campolide, apontando para o pneuzinho a despontar por debaixo da camisa largueirona. E assim ficou "Zé dos Pneus", dono e animador de loja de venda, calibragem e alinhamento de pneus, filósofo cheio de gás e malandro a tempo inteiro.

Semanas e semanas seguidas, o Zé dos Pneus animou-me a existência e espicaçou-me a inspiração. Se não disse muitas das tiradas e máximas que citei, podia ter dito. E saiu-se com tantas! Umas prosaicas, outras geniais! Era impossível ficar indiferente ao Hica. E ele fazia por isso. Com ele, ninguém levava a melhor, era o que faltava! Lembra o Melo, seu amigo de infância, que o Hica era conhecido em Campolide, em miúdo, por "Vira-Latas", imagina-se porquê. Agora, sem o Hica, o Melo nunca mais será o mesmo. Nem ele nem muitas dezenas de camaradas da Força Aérea (e não só) que com ele fizeram a tropa nos tempos quentes da guerra colonial, no Norte de Moçambique.

O Hica era mecânico, psicólogo e animador cultural, com escola cumprida como vocalista de conjunto musical e em épicas noitadas no Casino do Estoril. O general José Queiroga, piloto de helicópteros e seu comandante, conheceu-lhe as manhas, as piadas e as invenções. O que o general não sofreu! Também ele vai sentir falta das bocas desbragadas do Zé dos Pneus, o alfacinha que chegou a ser uma espécie de adjunto do malogrado Professor Karma.

Foi Hica o responsável pelo sucesso de Karma, o Mentalista, certo dia em que o Professor conduziu um carro, de olhos vendados, pelas ruas de meia Lisboa. Afinal de contas, um truque tão simples!


No dia do enterro, os camaradas cantaram-lhe um fadinho junto à campa e soltaram uns quantos "gritos de guerra" dos tempos de Moçambique. Alguns choravam, como quem diz: "E agora? Quem é que nos vai juntar e fazer rir?!" O Hica, com jeito (também) para a escrita, haverá de gostar que leiam o relato da sua viagem de Lisboa até Nacala no paquete "Niassa". Chamou-lhe "O Cagalhão Flutuante". E, seja onde estiver, há-de inchar de orgulho por ter ido para a terra envergando uma farda de "Cabo-General de 4 Estrelas" feita pelos amigos.

crónica de Victor Bandarra Ligação Directa
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