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Correio da Manhã

Opinião
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17 de Abril de 2005 às 17:00
A notícia de ontem do ‘Expresso’, segundo a qual Ana Cláudia Nogueira, juíza do processo ‘Apito Dourado’, concluiu que “Pinto da Costa é pessoalmente responsável por ofertas a árbitros, incluindo o serviço de prostitutas (...) para obter contrapartidas no terreno desportivo”, vem confirmar as suspeitas alimentadas durante anos dos expedientes utilizados por determinados dirigentes e seus acólitos com o objectivo de adulterar a verdade.
Em causa está o FC Porto-E. Amadora, realizado em 24 de Janeiro de 2004, dirigido por Jacinto Paixão, após o qual o árbitro e seus auxiliares “foram conduzidos por Reinaldo Teles a um restaurante (...) onde jantaram” e depois foram levados pelo mesmo dirigente “ao hotel Méridien onde, no quarto de Jacinto Paixão, os esperava António Araújo com três prostitutas”. Das conclusões da juíza observa-se que os favores aos árbitros visavam beneficiar o FC Porto e prejudicar Sporting e Benfica.
Ora se o “FC Porto viciou o campeonato” – conforme deduz o ‘Expresso’ de acordo com a leitura do despacho da juíza –, o artigo 51.º do Regulamento Disciplinar da Liga prevê (a prazo) a baixa de divisão. Mas não é isso que deve mover (pela clubite) todos aqueles que defendem um futebol limpo e com regras iguais para todos. A despromoção do FC Porto (ou de qualquer outro clube) não deve ser vista como o centro de todas as vinganças. Até porque os telhados de vidro são enormes e são eles que colocaram o futebol, porventura o País, num beco de difícil saída. Nem a equipa do FC Porto do ano passado nem José Mourinho precisariam de expedientes que envolvem árbitros sem escrúpulos e prendas de duas pernas. Quando se entra por este caminho, até um jogo em casa com o E. Amadora, quando o FC Porto já adquirira importante vantagem, serve, pelo que se deduz, para corromper. É como a utilização e o efeito de uma droga pesada. Quem se pode sentir herói (heroína) numa situação destas? É verdade que o princípio da presunção de inocência só cai pela base em sede de julgamento e quando a sentença transita em julgado. Mas esse facto, fundamental num regime democrático, não pode ser obstrutivo de acções que, entretanto, se podem e devem promover. A FPF e a Liga estão atadas de pés e mãos. Porquê? Provavelmente, porque as cumplicidades, os comprometimentos e os expedientes são tão grandes que não há forma de parar. Digo: tem de haver forma de parar! E se a auto-regulação nada faz, quando vão sendo conhecidos alguns detalhes da operação ‘Apito Dourado’, então o poder político não pode deixar de intervir. Os leitores desculpem-me a linguagem vulgar mas, para algo ordinário, não é possível escolher as palavras: o futebol transformou-se numa casa de putas* – e não é por acaso que falo, à volta desse fenómeno, de prostituição intelectual de muita gente ligada ao desporto-rei. Gente com responsabilidades (até em largos sectores da Comunicação Social) que tudo faz para branquear o que é incómodo. Bem sei que, esta época, existem largas expectativas dos benfiquistas e agora dos sportinguistas no sentido da conquista do título de campeão nacional. Mas se começamos a compreender que a SuperLiga passada foi condicionada por factores exógenos (de duas pernas), com muito café pelo meio, e se podemos admitir, no fundo, que outras investigações poderiam levar à descoberta de situações semelhantes, adulterando resultados e campeonatos, também percebemos que a actual SuperLiga também pode estar ferida de morte. Não é apenas a orfandade da Liga e a passividade da FPF. Não é apenas a desconfiança sobre critérios de nomeação e avaliação dos árbitros. Não é apenas a diferença de critérios na (não) instauração de inquéritos ou sumaríssimos. O Conselho Superior de Magistratura, a este nível, já deveria ter tomado uma posição mais radical. Porque o ‘estado de Direito’ não pode ser posto em causa por uma justiça desportiva muito peculiar. Esta paz podre e esta modorra estão a promover no País a ideia do ‘salve-se quem puder’. Basta!
A realização do Estoril-Benfica no Algarve – um escândalo! – alegadamente por razões que têm a ver com os cofres dos ‘canarinhos’, é algo que tipifica a moral (ou falta dela) do futebol português. Bem sei que não é a primeira vez que se utilizam expedientes desta natureza: os clubes visitados acederem a adiar ou a alterar o local dos jogos, por motivos de ordem financeira, dando vantagem desportiva ao adversário. Mas a desfaçatez com que se marca um Estoril-Benfica para o Algarve já não é para rir. Não é normal um clube pôr em causa uma vantagem desportiva para tirar dividendos financeiros. Já não fora normal no Académica-Benfica da época passada (adiado em razão do teste que era necessário fazer ao novo estádio de Coimbra) como não foi normal transferir o Gil Vicente-FC Porto da época passada para Guimarães. Com árbitros (na condição de arguidos) a apitar jogos importantes (todos os jogos são, afinal, importantes!), com uma série de situações potenciadas pela falta de autoridade da FPF, quem é que acredita neste campeonato? Advogo, por isso, a suspensão imediata de todas as competições até que estejam reunidas as condições necessárias e suficientes. A FPF e a Liga não podem continuar a ser autistas. Se for necessário recorrer a árbitros estrangeiros, qual é o problema? O futebol português tem de estar acima da clubite e merece que alguém tenha a coragem de acabar com paninhos quentes e agir com determinação. A discrição deste Governo, a contrastar com a política folclórica do executivo de Santana, que anda por aí a modos que a prometer vinganças, não pode ser confundida com falta de coragem. A limitação de mandatos que está na primeira linha de preocupações de José Sócrates deve ‘baixar’ (ainda mais drasticamente) ao futebol: é uma forma de limitar os indícios de corrupção. E seria um exemplo para a classe política e para a sociedade.
Pergunto: será que não resta alguém para operar a limpeza?
NOTAS FINAIS:
1) O Sporting passa às meias-finais da Taça UEFA e o ‘jornal do Manelelé’ (que ideia mais ridícula e absurda!) já começa a fazer a cambalhota tradicional, com um editorial oportunista depois de AVISAR, em primeira página, que ao próximo amarelo Manuel Fernandes (já tinha acontecido com Simão) ficará de fora. Pais tem razão: há directores que só olham para o umbigo (adoram ser eles a notícia) e gostam de andar de braço dado com todos, tentando enganar meio mundo. Mas o engano é dele e a falta de seriedade, também, quando se percebe que uma derrota no primeiro trimestre do ano em matéria de audiências é transformada numa vitória do último semestre. Só se surpreende quem anda desatento e alimenta (a frio) estes exercícios de contorcionismo.
2) Houve alguém que disse ou escreveu que Mourinho não foi devidamente defendido em Portugal no ‘caso Frisk’. Ser português não é condição necessária e suficiente para uma defesa incondicional. Bem sei que houve quem defendesse Sá Pinto (quando agrediu Artur Jorge) e João Pinto (quando esmurrou um árbitro no Mundial’2002) mas deve prevalecer o bom senso. Defender o que é defensável.
3) Peseiro fez tudo certo frente ao Newcastle e colheu os frutos de uma audácia nem sempre presente.

* puta (do Dicionário Universal de Língua Portuguesa) – prostituta; rameira; meretriz.
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