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Correio da Manhã

Opinião
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16 de Março de 2007 às 09:00
Há já para aí quem vaticine o fim do estado de graça de Sócrates. Mas para além da ansiedade que transportam consigo os candidatos a criadores de factos políticos e antes da hoje acabada de anunciar infâmia dos propósitos do Governo da liberalização definitiva do aborto, nada parecia justificar o vaticínio. As maiorias absolutas são o melhor dos tónicos e a mais frequente demonstração de ‘razão’ das gentes do poder. Sócrates não tem de recear o PSD onde o jogo é exclusivamente o da sucessão.
Não tem de recear o PCP que tem uma rigorosa noção dos seus tempos. Não tem de recear o BE que continua a não ser mais do que um indispensável e bonito enfeite, mais ou menos surrealista, da democracia. Com o BE e o PCP, Sócrates estará sempre, por definição, em estado de desgraça. É uma espécie de norma estatutária dos bloquistas e (moderadamente) do PCP. O CDS (este ou outro qualquer) não podia ser mais eloquente.
Os portugueses em geral, mesmo não achando graça aos estados da dita, resignam-se. Até ver. Porque haveria, então Sócrates de perder o seu sono receando o fim do estado de graça? Só porque não sabe o que fazer com a saúde, a justiça, o ensino, as pescas, os funcionários públicos e respectivos ministros? Ou porque Cavaco regularmente lhe manda alguns recados? É curto.
O maior defeito de Sócrates é julgar-se imune às asneiradas dos seus ministros. A sua maior qualidade é saber exactamente onde pastam os mansos e onde estão os perigos que o ameaçam. Sócrates gosta de olhar para baixo e ver as hostes dominadas, mas não se esquece de olhar para cima. Para confirmar a bonomia e a quietude e a paciência de Cavaco. Que sabe que não dorme e, na hora da verdade, nunca passará pelas engasgadelas congénitas de Sampaio. Sócrates pode despedir directores por carta. Pode querer dominar as polícias e os tribunais. Pode sonhar eternizar-se no poder. Pode, até, sem exageros, fechar maternidades, hospitais e urgências. Pode, ainda, num assomo de insanidade julgar-se capaz de burlar estupidamente o País inteiro (PR incluído) na regulamentação do resultado do referendo. Mas Belém é o nosso ‘big brother’. Porque nós só somos receados por Sócrates quando votamos, mas Cavaco é receado todos os dias.
Cavaco é, em Belém, o pai distante que não altera a voz, mas é perfeitamente entendido. Que sugere com convicção. Que recusará aventuras e nunca deixará que Sócrates e o desafie impunemente. É assim que os portugueses, nos seus melhores sonhos, e Sócrates nos seus piores pesadelos, vêem o PR. Em Sócrates e Cavaco ter-se-iam encontrado o pai austero e o filho cheio de vontade de testar o pai, mas tolhido pelas suas cautelas. Sócrates comerá a sopinha toda e respeitará a autoridade paterna e Cavaco nunca terá de o pôr fora de casa. Cavaco quer ter mais elementos sobre a Ota? Vai tê-los. Quer uma discussão alargada da opção nuclear? Porque não? Sócrates pode reduzir todos os órgãos políticos do seu PS ao zero absoluto, mas, muito biblicamente, nunca deixará de olhar atentamente para a estrela de Belém. A que lhe iluminará o caminho. Coisas da vida.
PS – O retrato de Freitas do Amaral voltou ao Caldas. Lá se foi a maior realização política do genial ideólogo Portas...
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