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Francisco Moita Flores

Ainda a Cova da Moura

O problema da Cova da Moura não é da Cova da Moura. É um problema da metrópole, que alberga mais de metade da criminalidade nacional”.

Francisco Moita Flores 10 de Abril de 2005 às 17:00
É natural que em situações de crise como aquela que tem sido vivida na zona do bairro da Cova da Moura surjam muitas opiniões contraditórias, algumas delas de uma tolerância excessiva no que respeita à violência contra a polícia, outras exacerbando acessos de autoritarismo e a musculação da intervenção policial como a solução para todos os remédios. São os ‘musculados do costume’. Não indagam soluções de continuidade acomodando-se ao reforço militar das práticas policiais.
Não quero com isto dizer que seja contra a melhoria das condições de operacionalidade do policiamento nas zonas de risco. Melhores meios, melhor equipamento, melhor operacionalidade são adjectivações que a PSP tem que rapidamente conseguir para evitar a continuação de assassinatos inesperados de agentes da autoridade.
Porém, esta modernização, que se duvida que seja feita com a celeridade que a situação requer, pode diminuir riscos de actuação mas não resolve problemas de fundo.
A substância daquela realidade precisa de política e não de polícia. Diga-se, ainda, que todos os mecanismos de controlo utilizados nas grandes metrópoles, e Nova Iorque e S. Paulo são referências absolutas, por mais êxitos que a repressão imediata tenha provocado, o problema da violência retornou sempre, cada vez com maior ressonância à boca de cena.
O caminho é difícil. Mas já tem uma história e ela comprova o que temos vindo a defender. E o caso de Lisboa é paradigmático. Com Kruz Abecassis, depois com Jorge Sampaio e finalmente com João Soares, os programas de erradicação de barracas, de urbanização dos grandes guetos da cidade, da integração demo-urbanística de comunidades que viviam em processos de auto-exclusão permitiu a abertura dessas ‘ilhas’ que circundavam a cidade – o antigo bairro do Relógio, a Musgueira, a Curraleira, o bairro Chinês, o Casal Ventoso – a uma melhor ocupação do espaço como permitiu e abriu esses territórios a uma maior permeabilidade com a ‘ordem externa’ ou seja, a ordem do Estado.
Tal realidade facilitou a entrada da política, dos movimentos e organizações assistenciais, instituintes de adequação e regulação social, e até da própria polícia. Não é por acaso que as ‘ilhas’ de violência seguem uma rota que vai sendo construída conforme vão desaparecendo os guetos.
É uma política que tem dado resultados. E porque não devemos perder a memória porque ela conduz a um analfabetismo muito enraizado, deve saber-se que, pese este choque decorrente de três homicídios consecutivos a verdade é que, em termos estatísticos, estamos muito abaixo dos anos de violência que marcaram a década de oitenta, altura em que esta política de eliminação de focos de violência começou a ser atacada pelas autarquias.
É certo que a demora é grande, que não são despiciendas todas as medidas a melhorar as condições de actuação da polícia, mas não há outro caminho.
A violência, por outro lado, cresce e multiplica-se em alturas de crise económica e social. É o caso. É uma relação estabelecida há um século e não há volta a dar-lhe.
O problema da Cova da Moura não é da Cova da Moura. É um problema da metrópole, que alberga mais de metade da criminalidade nacional e na qual reside menos de um terço da população portuguesa.
Esta é a grande contradição, o paradoxo incontornável que identifica a violência metropolitana. Negar esta evidência, recusar olhar a floresta para ficar de olho na árvore é o caminho dos simplistas que em vez de solucionar apenas adia a extirpação decisiva do problema.
A concluir diga-se que o problemas das ‘Covas da Moura’ não se revolve por impulso mas com determinação. E isso por vezes falta a quem manda.
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