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Correio da Manhã

Opinião
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Rui Pereira

Elogio do inimigo

O respeito pelos adversários é sempre condição de reconhecimento do nosso próprio valor. <br/>

Rui Pereira 7 de Março de 2013 às 01:00

Em tempos de crise, os sucessos desportivos têm um efeito balsâmico poderoso. Por alguma razão o poeta romano Juvenal considerava, nas ‘Sátiras’, que o pão e os jogos circenses ("panis et circenses") constituiriam um método privilegiado de mitigar o descontentamento das pessoas. Ora, é certo e sabido que, quando o pão escasseia, convém reforçar a porção de circo. Nesse sentido preciso, a oposição afirmava, antes de 1974, que Portugal era o país dos três "efes", incluindo o futebol na trilogia e acusando-o de promover a alienação do povo.

Os últimos dias têm sido pródigos em sucessos desportivos que amenizam as perspetivas cada vez mais sombrias em matéria de recessão (que será, em 2013, superior em "apenas" 100% à inicialmente prevista). Assim, Sara Moreira sagrou--se campeã europeia dos 3000 metros em pista coberta, com toda a justiça e brilho. O "meu" Benfica conseguiu vencer o Beira-Mar e isolou-se no comando do Campeonato de Futebol. Por fim, o maior clube "português" de Espanha, o Real Madrid, derrotou o Manchester United e segue em frente na Liga dos Campeões.

Da vitória suada do Real Madrid, vão ficar para os anais do desporto duas atitudes altamente invulgares, ambas imputáveis a emigrantes portugueses famosos. Cristiano Ronaldo, autor do golo fatal para os ingleses, coibiu-se de o festejar em campo, numa manifestação de respeito e gratidão pelo clube que o projetou internacionalmente. No final do jogo, José Mourinho reconheceu, sem hesitar, em declarações à comunicação social, que a equipa do Manchester United fora a melhor e que a arbitragem a prejudicara – favorecendo, claro está, o Real Madrid.

No seu ‘Evangelho apócrifo’, Jorge Luis Borges aconselha-nos a nunca odiarmos o nosso inimigo, porque, se o fizermos, nos tornaremos de algum modo os seus escravos. São também de Borges algumas palavras inspiradas sobre sagas que cantam as virtudes guerreiras dos inimigos. O que vale para a "arte da guerra" vale também para a política e para o desporto, pelo menos por identidade de razões. O respeito pelos adversários é sempre um sinal de inteligência porque, tanto na vitória como na derrota, é condição de reconhecimento do nosso próprio valor.

 

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