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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Janeiro de 2004 às 00:00
A qualidade tem sido considerada a irmã gémea da cultura e desde que surgiu a televisão comercial há quem diga que as duas irmãs deixaram de se encontrar, até porque a televisão pública, sem suficiente financiamento estatal, teve de se virar para a publicidade (e, portanto, para as audiências). A história lembra o célebre episódio do encontro entre o escritor William Faulkner e do actor Clark Gable. Ambos iam trabalhar na adaptação para o cinema de ‘The Big Sleep’ de Raymond Chandler. Não se conheciam. Faulkner nunca tinha entrado numa sala de cinema e Gable nunca tinha lido um livro. O resultado foi excelente.
Ao longo dos últimos anos a RTP viveu entre a panela a ferver e o próprio fogo: como é que se cozinharia melhor o "serviço público de televisão"? Será que ela deveria ser o xerife da qualidade no meio audiovisual? O problema é que nunca houve uma definição concreta de qual deveria ser o espaço de respiração da televisão estatal: se de concorrência com as privadas, se de alternativa a elas. Um exemplo desta política em que os médicos de serviço iam administrando sedativos à doente até que ela enlouquecesse, foi dada por um ministro de António Guterres que chegou a dizer que a RTP tinha de ter "qualidade", mas que deveria ter pelo menos 20% de audiência. Há anos que o "serviço público de televisão" deixou de influenciar os gostos, porque deixou de ter uma política de produzir o que os canais comerciais não estão vocacionados para fazer (bons documentários, séries e peças de teatro de qualidade irrepreensível, telefilmes ligados a uma indústria de cinema). Falida financeira e culturalmente a RTP viveu ao serviço da sua própria sobrevivência. E da de alguns que confundem ‘cultura’ com aquilo que eles próprios produzem.
Num mundo em que as televisões de canal aberto vivem com a cabeça colocada na guilhotina se não tiverem fortes audiências, o espaço para a "televisão de qualidade" parece estar dependente do Estado, especialmente num País onde as elites são pequenas para rentabilizarem um canal de cabo nesta área. O difícil convívio entre a televisão, a cultura e a educação não é de hoje: mas nunca foi tão difícil de resolver como agora. O grande desafio do "serviço público de televisão" é garantir pluralidade cultural num País onde as elites dominantes foram contaminadas pelo poder da televisão. Pelas piores razões.
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