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Correio da Manhã

Opinião
7 de Maio de 2003 às 02:39
Aqui há tempos percorreu a Imprensa uma curiosa citação, se bem recordo anónima, que dava conta da estranheza de alguém perante o que estava a suceder neste mundo às avessas. Não seria capaz, agora, de a reproduzir na íntegra, mas sei que apontava, entre outras coisas, para algumas situações surpreendentes, como a de o maior campeão de golfe (Tiger Woods) ser um negro quando este é um desporto de brancos, a de os franceses, logo eles, considerarem os americanos arrogantes, e a de os alemães se terem recusado a participar numa guerra – a do Iraque.
Essa citação, que pretendia acentuar o paradoxal, tinha um carácter efémero, anedótico e, provavelmente, já poucos se recordarão dela. Mas a verdade é que, mutatis mutandis, também por cá, na nossa pequena aldeia, têm vindo a ocorrer alguns factos geradores do mais profundo espanto. Basta tomar-se em consideração esse fenómeno contra naturam que foi a aliança de personalidades politicamente nos antípodas e que se deram as mãos quando a guerra no Iraque já estava em progressão, numa manifestação a favor da paz, como se o súbito encontro de um denominador comum, o anti-americanismo (genético, adquirido ou acidental), tivesse apagado da consciência dos vários protagonistas as convicções que sempre haviam balizado o seu posicionamento político. Efectivamente, a aparente sintonia no repúdio ao belicismo de Bush resultou num coro desafinado, por mais que Soares, Freitas e Ferro entoassem hosanas à paz num cortejo em que flutuavam bandeiras do PCP, se agitavam fotos de Saddam Hussein e se confundiam estridentes palavras de ordem, da direita à extrema-esquerda. Merecedora de aplauso a ponderação de Gama, que sabiamente se auto-excluiu do evento.
Não menos assombroso foi um conjunto de reacções parlamentares, como por exemplo o chocante contra-senso de um deputado bloquista ter, embevecidamente, citado Walt Whitman, talvez o poeta que mais fidelidade expressou aos valores americanos, ou facto de o confuso líder da bancada do PCP (esse mesmo que tem ideias algo nebulosas sobre a "democracia" na Coreia do Norte) ter admitido que ninguém ficara triste com o desaparecimento do ditador iraquiano – que tanto apoio implícito merecera aos comunistas.
O que, no entanto, deixou por certo os portugueses siderados foi a apresentação, por essa bancada, de um voto, senão de protesto, pelo menos de "recomendação" para que fossem reconsiderados por Cuba os procedimentos judiciais adoptados contra os 78 dissidentes presos em Março e condenados em Abril pelo regime castrista. O PCP atrever-se a censurar as autoridades cubanas é, de facto, de se lhe tirar o chapéu. Afinal, que fizera, desta vez, o paranóico Fidel? Numa operação-relâmpago, em vésperas do conflito no Iraque, mandara deter, julgar e condenar algumas destacadas personalidades, membros de associações de defesa dos direitos humanos, jornalistas independentes e militantes políticos que há muito vinham a manifestar-se a favor de uma transição para a democracia. Afinal de contas, nada de novo. Havana já nos habituara a este estilo de actuação, acusando os opositores ao regime de supostos crimes, vagamente descritos como ameaças à soberania do Estado, e nunca o PCP se mostrara sensibilizado com a sorte dos dissidentes cubanos. Que pretendeu desta vez? Abalar a autoridade de um dos últimos abencerragens das ditaduras comunistas?
Se foi esse o objectivo, falhou. Menos de uma semana depois, Cuba julgou e executou sumariamente três dissidentes que se haviam apoderado de um ferry para fugirem em busca da liberdade – a pedra de toque para Saramago abrir finalmente os olhos. E, como vale mais tarde que nunca, é tempo de os comunistas fazerem auto-crítica, pois o seu cada vez mais pequeno mundo está a andar demasiado às avessas.
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