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Correio da Manhã

Opinião
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Rui Pereira

Nuvens cinzentas

A degradação da democracia portuguesa faz-se sentir através de sinais que se têm adensado.

Rui Pereira 1 de Agosto de 2013 às 01:00

A degradação da democracia portuguesa faz-se sentir através de sinais que se têm adensado nos últimos tempos, quase sem darmos por isso.

Afinal, quando envelhecemos com uma pessoa ou instituição, a inclemência do tempo é menos notória do que quando estamos longe dela.

Mas as nuvens já são iniludíveis: as leis são julgadas inconstitucionais por violação de direitos fundamentais e logo há quem diga que a culpa é do Tribunal Constitucional; investidores e administradores de bancos que se dedicaram a escrever verdadeiros tratados sobre crimes económicos e fiscais apregoam estouvadamente a necessidade de comprimir o Estado Social; projetos com o pio propósito de obrigar os maçons a declarar a sua filiação para efeitos de (não) acesso a certos cargos ou funções correm por gabinetes sem alma nem juízo e ninguém se escandaliza em nome da liberdade de consciência; o Primeiro-Ministro (que tenho, sem favor, por democrata) fala em "união nacional" e, confrontado com a infeliz conotação passadista das suas palavras, corre a repeti-las, convencido de que a semântica anula a memória.

É preciso regressar ao essencial nestes tempos conturbados. Talvez não devamos perder mais tempo a ler e ouvir pequenos ‘maîtres à penser' (que me desculpem os leitores, mas a única expressão portuguesa que me ocorre, numa singela homenagem ao pioneiro do comentário nacional, é ‘marcelúnculos').

Em vez disso, por que não relemos Albert Camus, esse enorme escritor franco-hispano-argelino - ou seja, do nosso céu, do nosso mar e do nosso sul -, cujo centenário natalício se comemora este ano? A sua profunda dignidade, o seu humanismo intransigente e o elogio das qualidades primordiais - integridade, liberdade e coragem - são mais atuais do que nunca.

A crítica do fanatismo ideológico e dos amores ou ódios abstratos, o reconhecimento do ser humano que há no outro e, acima de tudo, a consciência dorida de que somos imensa e irremediavelmente livres são lições inspiradoras a nível individual, mas também no plano coletivo.

Talvez essas lições possam evitar que haja quem debite, a todas as horas, o triste fado do protetorado, com nítida intenção desresponsabilizante e indisfarçável volúpia masoquista.

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