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Correio da Manhã

Opinião
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18 de Dezembro de 2003 às 00:00
Agitaram-se os partidos, a Igreja e o povo com a entrevista que D. Armindo Lopes Coelho deu ao ‘Expresso’ em que aparentemente defendia a despenalização do aborto. O embaraço dos partidos da maioria foi evidente e ao longo do dia de anteontem andou-se de Herodes para Pilatos, de iniciativa legislativa já em Janeiro para descriminalizar a interrupção voluntária da gravidez, até à posição final – parece – de que só se vai alterar a lei após um novo referendo, quatro anos depois daquele que teve o resultado de manter a lei como estava.
Também a Igreja portuguesa se embaraçou – e não pouco. A Comissão Permanente da Conferência Episcopal resolveu fazer uma espécie de interpretação autêntica daquilo que tinham sido as palavras do Bispo do Porto sem, pelo que se lê na nota, ter sequer contactado com D. Armindo, que regressava da Suíça surpreendido ao mesmo tempo que se publicava o comunicado sobre a sua entrevista. O tempo da Conferência Episcopal pareceu ser mais da política do que do religioso. E não falta, mesmo dentro da Igreja, quem ache que a actuação do cardeal Patriarca, D. José Policarpo, tem sido por vezes demasiadamente marcada pelo poder político. Em termos públicos, o comunicado da Conferência Episcopal só pode ser entendido como demarcar-se das palavras de outro bispo que, na ordem da Igreja, não é menos do que qualquer dos outros bispos.
Entre o comunicado da Conferência Episcopal e o comunicado de ontem do Bispo do Porto infere--se, à primeira vista, que a posição da Igreja continua a ser a mesma. Contra o aborto e, como recorda a nota dos bispos, até os casos que a lei civil não pune continua, para a Igreja, a ser uma desordem moral.
Mas uma coisa é ser contra o aborto – somos todos – outra é, apesar de tudo, a afirmação de D. Armindo de enorme compaixão pelas mulheres que são levadas a interromper a sua gravidez e a incomodidade que sente ao vê-las punidas civilmente. Nesse sentido, aquilo que D. Armindo disse – na entrevista e no comunicado que fez ontem – vai um pouco mais longe do que aquilo que é a posição pura e dura da Igreja. “Confesso que sinto muito o drama das mulheres que recorrem ao aborto e que, para além do sofrimento físico, psicológico e moral, têm de enfrentar o estigma da condenação e eventualmente da cadeia (e manifestei-o na entrevista)”, diz o Bispo do Porto, que se tem considerado um herdeiro de outro antigo bispo da mesma diocese, D. António Ferreira Gomes, que sofreu o exílio no tempo da ditadura. E D. Armindo é um prelado que sabe profundamente de Códigos Canónicos e que com a experiência que tem, do mundo e da vida, não diz o que não quer.
Mesmo para a sensibilidade de muitos católicos, a criminalização do aborto é, na maioria dos casos, uma segunda violência que se comete sobre as mulheres que o praticaram. E um problema que a sociedade tem que resolver na sua caminhada por novas veredas e novos equilíbrios. E todos sabemos também que a posição da Igreja tem sido fundamental para manter a lei como está, porque é uma das grandes forças em presença no teatro social.
“Nenhuma lei civil pode alterar a verdade fundamental do carácter inviolável da vida humana como grave dever moral, já expresso no quinto mandamento do Decálogo”, dizia a nota dos Bispos. E é bom que a estrutura da Igreja continue a ser uma referência moral, nestas e noutras matérias de gravidade semelhante. Mas este é um dos casos em que, suspeito, a ordem civil vai ter que seguir um caminho algo diferente e manter um certo e saudável distanciamento do que seria um mundo ideal – mas que não existe.
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