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Correio da Manhã

Opinião
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Fernando Calado Rodrigues

O diabo não existe

Desde os 14 anos que não acredito na existência do diabo. Com essa idade, li uma biografia de Santo Agostinho. Aquele que viria a ser um grande santo, na sua juventude percorreu as mais diversas estradas. Muitas delas "pouco católicas".

Fernando Calado Rodrigues 24 de Maio de 2013 às 01:00

 Todavia, nunca desistiu de procurar o sentido último das coisas, a verdade sobre Deus e a existência humana. Quando se debatia com o problema da existência do mal, segundo essa biografia, ter-se-á encontrado com Santo Ambrósio. Este ter-lhe-á dito:

- Dá-me a tua mão. O que sentes?

Agostinho respondeu:

- Sinto a sua mão.

Então, o bispo de Milão retirou a mão e perguntou ao jovem:

- E agora o que sentes?

- Sinto a falta da sua mão.

Desde o dia em que li este diálogo também eu entendi que o Mal é a ausência do Bem, como a doença é a falta da saúde e a escuridão é a ausência de luz. Compreendi, então, que o diabo não é uma existência, mas uma ausência de Deus.

Com o aprofundamento dos estudos teológicos, percebi o que aconteceu naquele diálogo. Agostinho, na falta de uma explicação melhor, inclinava-se para aceitar a existência dos dois princípios absolutos e eternos propostos pelo maniqueísmo: Deus e o Diabo. Depois do encontro com Santo Ambrósio, abandonou essa crença, que passou a combater, e aderiu à fé num único princípio absoluto: Deus, princípio e fim último de todas as coisas.

Como Agostinho, acredito em Deus e tenho dificuldade em aceitar a existência do diabo, porque o Mal carece de consistência ontológica. Contudo, admito que a ausência de Deus possa ser de tal forma intensa que adquira uma consistência, mesmo física. São os casos das possessões demoníacas. Mas essas ocorrências são raríssimas. Não se verificam com a frequência que os média noticiaram nos últimos dias. A esmagadora maioria dos casos são perturbações psíquicas, erroneamente atribuídas ao Maligno.

No Catecismo da Igreja Católica, recomenda-se que, "antes de proceder ao exorcismo, é importante ter a certeza de que se trata duma presença diabólica e não de um caso clínico" (nº 1673). Por isso, mesmo antes da confirmação da Santa Sé, não me pareceu crível que o Papa, sem qualquer verificação, de passagem, tivesse exorcizado o doente que lhe apresentaram.

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